

Autor: Antônio Rogério da Silva
Texto: SEARLE, J.R. Mente, Cérebro e Ciência, cap. 2, pp. 35-51.
Caso John R. Searle
não tivesse escrito o artigo "Mind, Brains and
Programs", em 1980, talvez ficasse conhecido apenas como
filósofo da linguagem autor da teoria d'Os Atos de Fala
(1969), onde os enunciados lingüísticos eram
considerados além de sua estrutura sintática e
semântica. Pois também precisava ser levado em conta
o comportamento ilocucionário do falante -declarar,
ordenar, prometer, aprovar etc- portadores de intenções
para ação. Sob esse aspecto, Searle pretendia
apresentar claramente as regras constitutivas e reguladoras que
distinguem cada ato de linguagem.
A partir do começo
dos anos 80, o debate em torno de seu polêmico artigo motivou
uma guinada na sua linha de pesquisa, passando da lingüística,
para a crítica filosófica da ciência cognitiva.
Em 1984, ele repetiu o ataque desferido em 1980, numa série de
palestras radiofônicas, promovidas pela emissora britânica
BBC. O livro Mente, Cérebro e Ciência é
o resultado dessas conferências postas em forma impressa,
acrescido das respostas às objeções que lhe
foram lançadas antes. Trata-se, então, de seis seções
coordenadas aos temas do funcionamento do cérebro humano; à
consideração da mente como fenômeno biológico
e à categorização dos termos tradicionais
relacionados com o processo mental. Do quarto capítulo em
diante, Searle procura explicar a estrutura da ação
humana, o método das ciências sociais para o estudo do
comportamento e a liberdade da vontade frente às colocações
apresentadas sobre o funcionamento da mente.
Logo de início,
portanto, o clássico problema da relação corpo e
mente, inaugurado por René Descartes, é abordado, no
intuito de esclarecer a interação entre os fenômenos
mentais e o organismo. Em poucas palavras, admite-se que a posição
fisicalista ingênua, que diz ser tudo existente no mundo um
composto de partículas físicas, não é
passível de refutação. Assim, como o mentalismo
ingênuo, por sua vez, é bem sucedido ao afirmar a
existência efetiva dos estados mentais. Destarte, tanto o
mentalismo, como o fisicalismo, seriam posições
consistentes em si e verdadeiras(1).
Computadores Não
Pensam
Para
Searle, não haveria problemas em aceitar a existência da
mente e do corpo como fenômenos naturais, sendo a primeira
causada por uma atividade dos componentes físicos do cérebro.
Todo embaraço surgia na pretensão da teoria
computacional em reproduzir uma inteligência artificial (I.A.)
que pudesse ser causada por qualquer outro aparato físico
desde que bem montado. A chamada I.A. forte erraria ao considerar o
cérebro humano como um computador digital e a mente como seu
programa.
De
acordo com essa postura, não haveria nada de especial na
constituição biológica da mente e um computador
feito com outro material, totalmente diferente, poderia executar o
programa cognitivo, sendo somente uma questão de tempo a
reprodução da configuração exata da
mente. Nessa perspectiva, seria possível as máquinas
pensarem, uma vez que os símbolos formais permitiriam
transportar os processos lógicos realizados pelo cérebro
para um mecanismo inorgânico.
Entretanto,
o fracasso da teoria computacional não estaria nas suas
deficiências tecnológicas, mas na sua concepção
de computador digital, pois tais equipamentos possuiriam a capacidade
sintática de manipular símbolos abstratos e não
a semântica que forneceria o significado das expressões
lingüísticas. A mente, além da sintaxe, possuiria
essa semântica necessária para preencher
conteudisticamente sua estrutura formal. Desse modo, para refutar a
hipótese do computador sintático, Searle propôs o
experimento mental do "quarto chinês", no qual uma
pessoa isolada reproduziria as instruções formais
contidas dentro do cômodo, mas não teria a compreensão
do que estaria fazendo.
Um
falante de uma língua ocidental -o português, no nosso
caso- é isolado numa sala que contém vários
símbolos em mandarim -língua oficial da China-, cujo
significado ele desconhece. Sobre uma mesa, há um manual em
português com regras de como o "lusófono" deve
entregar os símbolos corretos, toda vez que determinados
cartões, em mandarim, lhe forem mostrados. Desse modo,
observando no manual a correlação específica
entre os sinais recebidos e os enviados, a pessoa dentro da sala,
induz o destinatário de seus cartões, do lado de fora,
falante do mandarim, a acreditar que ele compreende sua língua.
No entanto, o falante do português trancado na sala, na
verdade, não entende uma palavra em mandarim. Tudo que ele faz
é seguir as instruções contidas no manual. Moral
da história: se o manual, semelhante ao programa de um
computador, não ensina palavra alguma em outra língua
ao leitor, então nenhum computador, ao executar um programa,
compreende o conteúdo daquilo que está sendo
processado. Tal como o personagem na sala, o computador apenas segue
as instruções formais para manipular símbolos em
uma sintaxe correta, sem compreender seu significado semântico (2).
Com
isso, Searle atacava a pretensão de que o teste de Turing
fosse suficiente para atribuir corretamente uma mente a máquinas,
pois seu desempenho poderia ser uma mera imitação
formal, sem entendimento do conteúdo da ação.
Por apresentar apenas um comportamento sintático formalmente
correto, o computador não conhece a semântica, o
contexto real de sua atuação, ou a intenção
de seus estímulos ou respostas (3).
Disso
tudo, extrai-se que a falta de uma semântica não
permitiria ao programa fornecer à máquina uma
compreensão de suas ações, pois esta não
saberia o significado das expressões envolvidas no
processamento das informações. Contudo, por mais óbvias
que fossem essas colocações, várias críticas
foram lançadas por parte dos teóricos da computação
e outros filósofos. Entre elas, afirmou-se que, embora a
pessoa dentro de um compartimento não soubesse o que estava
fazendo, o quarto e o sistema, como um todo, saberiam; ou se um
programa fosse instalado num robô, ele se comportaria como quem
compreendesse o que faz. Porém, Searle insistiu que, fosse ele
tal robô, não seria ainda capaz de entender nada, apenas
seguindo as instruções formais e sintáticas,
pois faltaria o significado e a semântica necessária
para tanto. As interações do equipamento com o ambiente
seriam irrelevantes nesse caso.
Só
máquinas biológicas, como os seres humanos, poderiam
causar os efeitos que caracterizam a mente. Nenhuma outra seria capaz
de pensar usando tão somente regras sintáticas, pois é
o conteúdo semântico que dá o significado.
Independente do estágio tecnológico alcançado
pela I.A., a simulação da mente não será
bem sucedida se o computador não puder duplicar as causas
mentais, que permitem ao cérebro secretar a consciência.
Afinal, a imitação por si só não
constitui a coisa imitada.
O
cientista cognitivo canadense, Zenon W. Pylyshyn, criticou essa
vinculação entre intencionalidade e o aparato físico
cerebral, feita por Searle. Semelhante aos contos "Segregacionista"
e "O Homem Bicentenário",
de Isaac Asimov, Pylyshyn imaginou a substituição
gradual das células nervosas por circuitos eletrônicos
integrados que mantivessem a mesma função delas, até
chegar o ponto em que a pessoa, subjetivamente, perdesse a
compreensão do significado de suas ações. Nesse
momento, todos os seus amigos, do ponto de vista objetivo,
continuariam entendendo suas palavras como se elas remetessem a
alguma intencionalidade.
Apesar
desse embaraço, Searle continuou mantendo sua posição
de que bastam apenas dois níveis de explicação
-intencional e fisiológico- para entender porque o cérebro
realiza estados intencionais. Destarte, ele abandona a idéia
de que haja um programa de computador entre a mente e o cérebro
e com ela a necessidade de um nível de representação
simbólica (4).
A
inspiração do "quarto chinês" é
uma adaptação de experimento semelhante imaginado por
Ned Block no artigo "Troubles
With Functionalism" (Problemas
com o Funcionalismo, 1978).
O chamado "ginásio chinês" reunia, num estádio
maior que o Maracanã, milhões de pessoas para que elas
transmitissem sinais umas às outras, por meio de rádios
de fala-escuta -numa analogia ao funcionamento dos neurônios.
Assim, seguindo uma série de regras, a multidão
conseguiria responder a perguntas sobre histórias em mandarim,
embora o ginásio não entendesse uma palavra dessa
língua. É curioso notar que a intenção de
Block era defender a teoria computacional do cérebro, o oposto
do que Searle propôs (5).
Contra o conexionismo, Searle diz que as conexões
correspondentes às sinapses neurais não simulam as
propriedades causais que provocam a sua compreensão, por mais
perfeita que seja a emulação do funcionamento do
cérebro. Falta-lhes habilidade para produzir estados
intencionais. Para Searle, "a mente e o corpo interagem, mas são
duas coisas diferentes, visto que os fenômenos mentais são
justamente características do cérebro"(6)
Em
todas as teorias computacionais, existiriam certas características
de fundo behaviorista e dualista, o que seria fonte de suas
inconsistências. Ambas motivações podem ser
refutadas pela afirmação de que a mente nada mais é
do que um fenômeno biológico natural do mundo.
Resumindo, Searle propõe as seguintes teses que refutariam a
postura forte da I.A.: primeiro assumindo que os cérebros
causariam a mente; segundo, que a sintaxe não é
suficiente para gerar a semântica; terceiro, que os
computadores só são capazes de ser definidos por uma
estrutura formal sintática; quarto, que a mente possui
conteúdos mentais semânticos. Logo, conclui-se que
nenhum programa proporciona uma mente ao computador e nem esta pode ser entendida como tal. Não é o programa que
faz as funções cerebrais causarem a mente. A biologia
do cérebro precisa exercer algum papel nisso. Tudo o que causa
a mente deve ter, essencialmente, o mesmo poder causal dos cérebros
humanos, o programa por si só não é suficiente.
Em
suma, como diz Searle: "a consciência, a intencionalidade,
a subjetividade e a causação mental fazem parte de
nossa história vital biológica, juntamente com o
crescimento, a reprodução, a secreção da
bílis e a digestão"(7).
Referência
Bibliográfica
GARDNER, H. A Nova Ciência da
Mente; trad. Cláudia M. Caon. - São Paulo: EDUSP,
1995.
PINKER, S. Como a Mente Funciona;
trad. Laura T. Motta. - São Paulo: Companhia das Letras, 1998.
SEARLE, J.R. Os Atos de Fala; trad.
Carlos Voigt et.al. - Coimbra: Almedina, 1984.
________,___. Mente, Cérebro e
Ciência; trad. Artur Morão. - Lisboa: Edições
70, 1984.
Notas
1.Veja SEARLE, J.R. Mente, Cérebro e
Ciência, cap. 1, pp. 11-33.
2.Veja SEARLE, J. R. Op. Cit, idem,
pp. 39-41.
3. Veja
GARDNER, H. Ibidem, ibidem, pp. 187-188.
4. Veja
GARDNER, H. Ibidem, ibidem, pp. 188-191 e SEARLE, J. R. Ibidem,
cap. III, pp. 66-70.
5.Veja
PINKER, S. Op. Cit. idem, pp. 104-105.
6. SEARLE,
J. R. Idem, cap. I, p. 33.
7 SEARLE, J. R. Ibidem,
cap. II, p. 51.
