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Resenha: Variantes Críticas

por Antônio Rogério da Silva

Texto em Discursus
Ainda há tempo - antes de 2005 terminar - de comentar o lançamento de Variantes Críticas: A Dialética do Esclarecimento e o legado da Escola de Frankfurt, por Sílvio R. Rabaça. O texto é a edição da dissertação de mestrado, cuja banca avaliadora recomendou sua publicação. Rabaça, então, a fez imprimir pela editora Annablume, permitindo ao público geral ter acesso a sua abordagem crítica da obra dos alemães Max Horkheimer (1895-1973) e Theodor Adorno (1903-1969), Dialética do Esclarecimento, referência marcante na passagem para a segunda metade do século XX. Este livro constituiu-se em um ataque contundente ao desenvolvimento da civilização tecnológica, apoiada em um projeto de razão construído ao longo da Modernidade.
O debate em torno da racionalidade estabelecido por Horkheimer e Adorno, embora não fosse uma novidade em seu tempo, tornou-se vanguarda da crítica da sociedade de consumo contemporânea ao forjar o conceito de indústria cultural, que caracterizou com propriedade as principais deformações provocadas pelo progresso do capitalismo e seu modo de vida consumista e desagregador, ou atomista. A sociedade caótica dos dias atuais é o resultado mais claro dessa concepção de vida, às voltas com problemas ambientais, econômicos, violência e miséria.
Rabaça traça em seu livro uma discussão em torno de Dialética do Esclarecimento, seus dois autores, além de um capítulo dedicado a Jürgen Habermas, como forma de abordar o teor dos temas centrais tratados pela Escola de Frankfurt, famoso centro alemão de autores marxistas, que procurou tecer uma teoria crítica da sociedade ocidental, a partir de várias disciplinas. Na estética, destacou-se o trabalho de investigação de Walter Benjamin (1872-1940) e do próprio Adorno. Na psicologia, Erich Fromm (1900-1980) foi o principal nome, enquanto Herbert Marcuse (1898-1979) projetava mirabolante panorama político e todos pesquisadores envolviam sempre sociologia com filosofia.
A narrativa desenvolve-se em volta do eixo Horkheimer-Adorno, Dialética do Esclarecimento e Habermas. Com isso, Rabaça pode deter-se no principal tema da teoria crítica, sem se abster de incluir outros personagens de Frankfurt, considerados relevantes, como é o caso da influência de Benjamin e das ponderações de Albrecht Wellmer, outro importante nome da chamada segunda geração de frankfurtianos. Entretanto, não se pode deixar de mencionar a ausência de Karl-Otto Apel, influente amigo de Habermas, e a econômica menção a Marcuse. Contudo, o texto vai bem naquilo que se propõe fazer, isto é, delinear as variantes da teoria crítica que desaguaram em Dialética do Esclarecimento e depois expandiram-se através de seus seguidores, nem sempre fiéis àquela doutrina ou prontos para assumirem as consequências dramáticas da modernidade.
Variantes Críticas restringe-se, portanto, ao caráter acadêmico de um debate metateórico sobre o pensamento de Horkheimer e Adorno, sua principal obra e seus discípulos diretos. Horkheimer, cronologicamente, é tratado logo no primeiro capítulo como principal autor do programa interdisciplinar implantado no Instituto de Pesquisa Social de Frankfurt. Inicialmente não com o aspecto negativo da crítica que Adorno, mais tarde, iria caracterizá-lo, mas ainda dentro de uma perspectiva utópica de superação do subjetivismo e do domínio positivista sobre as ciências, em geral. Três objetivos maiores orientavam a concepção teórica da crítica que depois veio a ser exposta no livro mencionado: o esclarecimento de uma linha de ação considerada verdadeira; a reflexão como método de investigação e a busca de uma normatividade que permitisse o desenvolvimento da sociedade, através das ciências, com o suporte de uma teoria materialista. Com alguma variação dos propósitos, o pessoal em Frankfurt procurou ter esse projeto teórico em mente.
Horkheimer pretendia opor sua teoria crítica aos sistemas fechados da tradição filosófica. Contra a esterilidade do dualismo metafísico, parte do materialismo para atacar o idealismo, o empirismo e até mesmo o marxismo ortodoxo, naquilo em que essas correntes tinham de pretensão a um conhecimento absoluto. O objetivo era mostrar como a ciência, portadora de suposto conhecimento, servia a interesses não revelados. Longe de ter uma função meramente cognitiva, as ciências exerceriam um papel modelar na constituição da verdade, cujo caráter definitivo deveria caber à sociedade como sujeito de um processo dialético de transformação da realidade e não a especialistas. Na formação do conhecimento universal, as ciências especializadas, para evitar tais equívocos, deveriam participar de um esforço interdisciplinar, a fim de que todos pudessem refletir sobre sua sustentação social e a ação política que lhe fosse pertinente. Nesse sentido, economia, psicologia e sociologia - para citar algumas das ciências humanas mais importantes - teriam por objetivo esclarecer as relações existentes entre a infraestrutura e a cultura vigente. Entretanto, devido às contigências históricas, nenhum conhecimento moldado dessa maneira conseguiu atingir uma correção absoluta, suprema e perfeita. O que vale dizer que a perspectiva revolucionária (hegeliana) de um novo sujeito capaz de atingir a felicidade estaria sempre por se realizar, sem se consolidar em um determinado momento da história do espírito.
Adorno partilhava com Horkheimer do ponto de vista que a tentativa da burguesia de abarcar a realidade de um modo absoluto, sob uma prática social, havia fracassado. Entretanto, ao invés de proceder a uma revisão crítica da filosofia tal como a proposta de Horkheimer, Adorno procurou trabalhar sobre a lógica interna da filosofia, imanente, no intuito de rejeitar a estagnação dialética da história. Esta por si só não seria capaz de garantir qualquer significado objetivo aos fenômenos por sofrer constante mudança. Assim, história e natureza, como os demais conceitos sociais, não são estáveis. Ou seja, tudo estaria aberto a uma abordagem crítica. Todavia, a própria crítica da racionalidade moderna poderia voltar-se contra si mesma, caindo em uma contradição aniquiladora. Para entender a totalidade, portanto, seria necessário observar os elementos detalhados que compõem os fenômenos culturais. Tal análise revelaria a dinâmica contraditória do conjunto social e sua lógica dialética e como as idéias são formadas tramando uma rede de significados linguísticos que preservam a verdade do objeto por meio de uma representação que produz a imagem histórica de uma realidade social.
Entre Adorno e Horkheimer, Dialética do Esclarecimento foi a obra que representou os encontros e os conflitos existentes entre essas duas visões do movimento dialético da história, em meados do século XX. Ambos tinham em conta a rejeição do mito do progresso da história que marcava o idealismo alemão, depois de Hegel. O objetivo era investigar a verdade por detrás das idéias burguesas, sem cair nos equívocos do absolutismo idealista. Diferente de Horkheimer, que pensava ser possível resgatar a racionalidade universal da atividade humana, Adorno procurava transformar as contradições do idealismo em virtude de fomentar o conhecimento, mas, para isso, seria preciso denunciar e eliminar as relações de poder estabelecidas e inerentes ao sistema. Do desenvolvimento do Iluminismo, emerge a vontade de dominação de tudo que é particular sob conceitos universais. Nesse sentido, a indústria cultural exerceria a tarefa de moldar os gostos e preferências individuais. Desse modo, são postas como naturais as relações de trabalho existentes e o mito positivista de progresso da ciência. Caberia, então, ao crítico social denunciar a violência do poder e as atrocidades mascaradas da sociedade ocidental, montada dessa forma.
Nesse contexto, Habermas destacou-se na geração posterior formada pela leitura da Dialética do Esclarecimento. Através da sua postura, procede-se à avaliação do legado de Frankfurt. A partir de Discurso Filosófico da Modernidade, esbelece-se a crítica à aproximação de Horkheimer e Adorno das objeções irracionalistas lançadas por Nietzsche. Habermas, que fora aluno de Adorno, não aceita o pessimismo que flerta com o relativismo e transparece naquela obra. Por causa disso, o projeto intelectual de Habermas acabou por seguir uma trajetória própria, passando por uma guinada pragmática, nos anos 1970, que incorporou o modelo linguístico de interpretação do relacionamento humano e o mundo. Desde então, não mais a orientação da filosofia da consciência e seu paradigma "sujeito e objeto", mas agora uma perspectiva intersubjetiva deveria ser adotada pelo viés de uma racionalidade comunicativa que dominaria o cenário intelectual da nova geração, pelo menos até os anos 1980. Na concepção de Habermas, a vinculação da Dialética do Esclarecimento a uma postura nietzscheana acabava por gerar uma crítica historicista que recaia na pretensão de desocultamento último da verdade. Só uma guinada linguística poderia superar os problemas propostos à modernidade, nos quais a própria crítica de Horkheimer e Adorno se enredam, por se comprometerem com uma crítica irracional da racionalidade totalmente contraditória.
Tudo isso, fica-se sabendo por meio da leitura de Variantes Críticas e a conclusão vem reforçar a imagem de filiação de Dialética do Esclarecimento à corrente pós-modernista da qual foi precursora. A postura ambígua frente ao conceito de razão e a rejeição à toda forma de explicação sistemática da totalidade do mundo já estavam lá. Assim, Variantes Críticas segue, pacificamente, o estilo acadêmico de uma obra voltada para obtenção de um título de nível superior, no caso o mestrado em filosofia de uma pós-graduação em instituições brasileiras. Apesar de seu sisudo formalismo, não se trata de uma obra inacessível ao leitor inteligente que não se assusta com termos técnicos e capaz de construir uma imagem geral de um texto documental (não-ficcional). Cumpre aquilo a que se propõe: uma apresentação da estrutura principal da Escola de Frankfurt e seu legado. Entretanto, um leitor mais avançado e interessado nos desdobramentos mais amplos daquela teoria crítica, em nossos dias, pode sentir a falta de uma discussão atualizada do conceito de indústria cultural - talvez a principal contribuição dos frankfurtianos à compreensão inovadora da era tecnológica e que ainda requer uma revisão e detalhamento.
A indústria cultural é um conceito chave para o entendimento da vida consumista que subjaz à globalização e cujo fim é a padronização de todos os gostos e costumes. Algo a ser debatido com maior rigor e de forma aguda em outro lugar. Sílvio Rabaça é um autor que demonstra, em Variantes Críticas, ter a capacidade para desenvolver tal assunto, provavelmente em seu próximo lançamento.

Referências Bibliográficas

HABERMAS, J. O Discurso Filosófico da Modernidade; trad. Ana Mª Bernardo. – Lisboa: D. Quixote, 1990.

HORKHEIMER, M. & ADORNO, Th. W. Dialética do Esclarecimento; trad. Guido A. de Almeida. – Rio de Janeiro: Zahar, 1985.

RABAÇA, S.R. Variantes Críticas: A Dialética do Esclarecimento e o legado da Escola de Frankfurt. – São Paulo: Annablume, 2004.

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