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Nome: ARS Endereço eletrônico: ars62@ig.com.br Título: Deformação à Distância Comentários: Longe de defender a universidade particular Estácio de Sá, alvo de uma armadilha montada pela Rede Globo de Televisão, convém recapitular alguns acontecimentos na área de educação, no Brasil, que podem ter relação com o estágio atual do ensino em outros países de língua portuguesa. A Estácio de Sá foi vítima de seus próprios erros ao selecionar um "padeiro analfabeto" infiltrado pela reportagem da referida emissora entre os pretendentes ao curso de Direito de uma de suas unidades, localizada no Méier - bairro do subúrbio carioca, próximo ao Rio Comprido, onde essa universidade teve origem. Dos nove inscritos para o vestibular naquela filial, o "candidato da TV" passou na nona colocação, portanto em último lugar, graças ao ardil de optar alternadamente sempre pelas duas primeiras opções das respostas, numa prova de múltipla escolha, prática que lhe garantiria, com alguma dose de sorte, média suficiente para aprovação. Alegando problemas de saúde, esquivou-se o "estudante da Globo" da prova dissertativa que denunciaria a trapaça. Assim, devido aos critérios pouco rigorosos da Estácio, esse sujeito foi considerado apto a frequentar às aulas de Direito, mesmo sem ter passado por uma prova de redação.
O escândalo caiu como uma gota no oceano de más notícias que inundaram as raras páginas dedicadas à educação dos jornais brasileiros. Durante o segundo semestre de 2001, uma greve de professores federais parou por mais de 100 dias as instituições nacionais, prejudicando a formação dos alunos e o concurso vestibular das universidades públicas. No dia nove de outubro, o presidente da República, Fernando H. Cardoso, vetou o projeto de lei que tornava obrigatórias as disciplinas de Filosofia e Sociologia no ensino médio, argumentando com a falta de professores especializados e os custos extras para os Estados interioranos. Na primeira semana de dezembro, a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) divulgou relatório sobre o desempenho de estudantes de até 15 anos em seus países membros e convidados. Nas provas que consistiam na interpretação de textos gerais, matemáticos e científicos, os adolescentes portugueses e brasileiros atingiram, respectivamente, a 26ª e a 32ª posições, entre as 32 nações pesquisadas. Além disso, ao apagar das luzes do ano legislativo, a Câmara dos deputados aprovou proposta de emenda constitucional (205/95), que permite empresas estrangeiras ter o controle de 30% do capital de empresas de comunicação, no Brasil.
Tudo isso, compõe o cenário da triste figura que retrata a educação no país e seus possíveis reflexos em outros países lusófonos. Não por coincidência, está envolvido como pivô de toda recente e lamentável história da educação brasileira o virtual monopólio da comunicação formado por Roberto Marinho (1904), notório "testa de ferro" dos interesses internacionais por aqui. Desde seu início, em 1966, a Rede Globo contou com o investimento de cinco milhões de dólares do grupo norte-americano Time-Life, quando era proibido pela Constituição a participação de estrangeiros não naturalizados no comando de emissoras de radiodifusão, concessões de serviços considerados bens públicos. No final dos anos 70, a Fundação Roberto Marinho lançou seu projeto de ensino à distância chamado "Telecurso 2° Grau", com o intuito de suprir a falta de professores no nível médio em locais distantes do território nacional. Nas últimas décadas do século XX, a tentativa de implantar os Centros Integrados de Educação Pública (CIEPs) - um projeto do antropólogo Darcy Ribeiro (1922-1997) -, pelo governador fluminense Leonel Brizola (1922), foi atacada por uma campanha sistemática dos jornais, rádios e TVs pertencentes às organizações Globo. Os CIEPs visavam estabelecer o turno único de aulas, numa estrutura que contava com biblioteca, sala com equipamentos áudio- visuais, refeitório e ambulatório médico à disposição dos alunos, uma séria concorrência às pretensões dos telecursos. Em 1992, o projeto dos CIEPs foi adotado pelo governo do então presidente, Fernando Collor, sendo esse o principal motivo que levou a Rede Globo aderir às manifestações pelo seu impedimento.
Atualmente, a educação pública do Brasil vem sendo gradativamente desmontada, a ponto de permitir a proliferação de universidades particulares por todo lugar, reproduzindo cursos profissionalizantes de nível técnico sob a fachada de ensino superior, graças ao fracasso dos ciclos fundamental e secundário. O desleixo dos governos, a privatização do ensino e sua variante televisiva geraram o quadro negro refletido pela prova da OCDE. Cerca de 250 mil jovens e adultos são atingidos, em 2001, pelo programa "Telecurso 2000" da Fundação Roberto Marinho e da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP), formando também os "analfabetos funcionais" que buscam vagas nas universidades. Ao longo de todo esse período de degradação, os programas transmitidos pelo monopólio brasileiro estendeu suas atividades por outros países falantes do português, o que talvez explique, em parte, a nota baixa obtida por Portugal. Diante do desestímulo à leitura e o desserviço à educação provocados pelos conteúdos de péssima qualidade da programação da televisão brasileira, agora, finalmente, seus verdadeiros donos podem revelar seus interesses inconfessáveis. Muito fácil é controlar e vender produtos ruins a uma população sem grau de instrução adequado.
Réplica:Telecurso 2000 | |