História da Filosofia Moderna: Século XVII
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Universidade do Estado do Rio de Janeiro
HISTÓRIA DA FILOSOFIA MODERNA

Primeira Unidade - SÉCULO XVII:

  • O Novo Método de Descartes;
Por Antônio Rogério da Silva

O atrito que gerou divergências entre Hobbes e Descartes, não impede de identificá-los como os dois principais fundadores da Era Moderna, se por um lado Descartes - devido ao temor excessivo da Inquisição - absteve-se de uma postura mais destacada em física e moral, por outro, na metafísica pôde com seu Método da Dúvida inaugurar com firmeza uma nova forma de pensar. Na política e na moral, Hobbes arcou com o ônus das acusações e perseguição pela sua ousadia em inovar. Na lógica e filosofia primeira, Descartes teve de preocupar-se apenas em responder objeções acadêmicas, sem temer estar pondo sua vida em risco. Pelo contrário, a boa aceitação do sistema cartesiano na álgebra fez com que ele fosse requisitado por reis e rainhas a ensinar seu novo método pessoalmente. Ironicamente, mais do que a perseguição religiosa, o peso do sucesso irá quebrar a resistência de sua saúde frágil, ao atender o convite da Rainha Cristina da Suécia (1626-1689).

Na primeira metade do século XVII, a França foi território de governos mais estáveis do que o restante da Europa. A participação direta do país na Guerra dos Trinta Anos só ocorreu em sua última fase para decidir o conflito. Mais político e estratégico do que religioso, o interesse que motivou o envolvimento da França foi o temor do fortalecimento do Império dos Habsburgos (na Boêmia, República Tcheca). Por conta disso, a França que era católica estimulou a revolta dos príncipes protestantes, na Alemanha, e a intervenção da Suécia luterana. Com a morte do rei sueco, Gustavo Adolfo, em 1632, e a consequente vitória do Império, a França foi obrigada a enviar tropas, em 1635, contra os germânicos e seus aliados espanhóis. A vitória definitiva dos franceses foi construída em duas etapas: primeiro com a derrota dos espanhóis, em Rocroi - fronteira da França com a Bélgica -, em 1643; depois com o cerco de Viena, capital da Áustria, em 1648.

O fim da Guerra dos Trinta Anos viu surgir a hegemonia da França na Europa. A vitória dos franceses, consolidou na política externa o desenvolvimento da política do cardeal Richelieu (Armand-Jean du Plessis, 1585-1642) - primeiro ministro de Luiz XIII - que procurou unificar todas as forças em torno do rei. Para isso, combateu a aristocracia feudal, incentivou o florescimento da burguesia através do comércio e indústria, enquanto retomava as praças de guerra mantidas pelos protestantes, como a fortaleza de La Rochelle. Os protestantes perderam os direitos políticos e militares, mantendo apenas a liberdade de culto.

René Descartes - ou Renati Cartesius quando escrevia em latim - viveu durante esse período de consolidação do Estado moderno na França. Nasceu em 1596 em Haye, hoje chamada Descartes. Sua família vivia bem do comércio e da medicina, sendo o pai conselheiro do rei no parlamento da Bretanha, noroeste da França. Pôde, então, aos dez anos, ingressar no melhor colégio do país, em La Flèche, fundado e dirigido por jesuítas. Essa experiência de ensino irá marcar sua formação e a convicção de propor novas bases para filosofia. O curso de direito em Poitiers, entre 1614 e 1616, servirá para reforçar a má impressão sobre as disciplinas da cadeira de humanidades, devido ao seu conteúdo ultrapassado.

Descartes herdara de sua mãe, que morrera antes dele completar o primeiro ano de vida, uma saúde muito fraca. Problemas respiratórios e uma tosse crônica obrigavam com que ficasse acamado por longas horas. Em La Flèche, tinha permissão de assim ficar por quanto tempo desejasse. Hábito que manteve durante suas meditações filosóficas. Não obstante, o desprezo que nutria pela Escolástica o estimulou a se engajar no exército holandês de Maurício de Nassau (1604-1679), entre 1618 e 1620, como parte de seus planos para "ler o livro do mundo".

(...) [T]ão logo a idade me permitiu sair da sujeição de meus preceptores, deixei inteiramente o estudo das letras. (...) [E]mpreguei o resto de minha mocidade em viajar, em ver cortes e exércitos, em frequentar gente de diversos humores e condições, em recolher diversas experiências, em provar-me a mim mesmo nos reencontros que a fortuna me propunha e, por toda parte, em fazer tal reflexão sobre as coisas que se me apresentam, que eu pudesse tirar delas algum proveito (...) (DESCARTES, R. Discurso do Método, I parte, p. 33).

Em sua breve carreira militar, passou pela Dinamarca, Polônia, Hungria e Alemanha, onde em 1619 teve um sonho que lhe sugeria ser possível unificar todas as ciências de sua época pela vinculação das leis da matemática com as da natureza. Essa intuição surgiu entre pausas de suas atividades militares num quarto em Ulm. Da cama, ao observar o vôo de uma mosca - que não o deixava dormir -, notou que a posição do inseto no ar podia ser descrita em cada instante, se fosse achado o ponto de interseção entre os planos dimensionais por onde o pequeno animal passava - facilitando sua captura. O sistema cartesiano de coordenadas permitia que qualquer posição no espaço pudesse ser identificada no plano por números relacionados com a altura e a largura. Desse modo, Descartes combinava em um só ramo da matemática, a geometria analítica, a álgebra com a geometria. Essa foi sua principal contribuição para as ciências.

Em 1620, ano em que Francis Bacon publicou Novum Organum, Descartes encerra sua carreira militar para dedicar-se apenas à pesquisa científica e filosófica. Durante os próximos sete anos, escreve vários textos inspirados na sociedade Rosa Cruz, na qual havia se filiado logo depois de sair do exército. Em 1628, deixa inacabadas as Regulae ad Directionem Ingenii e resolve se fixar na Holanda até 1649. Prepara, nos primeiros cinco anos desta estadia, o ambicioso Tratado do Mundo e da Luz de tendência copernicana, que tem seu lançamento abortado, quando recebe a notícia da condenação de Galileu. Tal fato irá perturbar todo seu pensamento futuro que passa a ser cauteloso ao extremo, impedindo mesmo que publique um texto definitivo sobre moral, permanecendo sempre em uma providencial "moral provisória" ou em uma metafísica fundada em Deus.

Descartes na corte de Cristina da SuéciaEm 1635, de um relacionamento "ilegítimo", nasce sua filha Francine, cuja saúde precária não permite que passe dos cinco anos de idade. Esse revés a mais abala fortemente seu espírito. Meditações sobre a Filosofia Primeira aparece em 1641 como desdobramento do argumento principal de Discurso do Método para bem Conduzir Sua Razão e Buscar a Verdade através das Ciências (1637). O sucesso de suas apresentações para acadêmicos na França o torna famoso entre os eruditos. Para os teólogos, escreve Principia Philosophiae, em 1644, e As Paixões da Alma, em 1649, para rainha Elisabeth da Boêmia. Esta foi sua última obra publicada em vida. No inverno de 1649, aceita o fatídico convite da rainha Cristina, vindo a falecer de pneumonia em Estocolmo, no ano seguinte.

O Discurso do Novo Método

Descartes escreveu o Discurso do Método como introdução a três ensaios: dois sobre física, Dióptrica e Meteoros e um sobre seu sistema de notação matemática Geometria. O estilo adotado possui aspectos quase confessionais. Escrito em primeira pessoa, de uma maneira direta e elegante, Descartes narra em seis partes as etapas que o levaram à criação de um novo método de raciocínio científico, apoiado em fundamentos firmes e irrefutáveis.

Na primeira parte, apresenta a situação em que se encontravam as ciências e a mentalidade diletante de seu tempo. Revela, porém, a admiração pela matemática, devido à certeza e à evidência de seu raciocínio, embora lamentasse a pouca aplicação de seus fundamentos sólidos e firmes no cotidiano. O estado precário do ensino das ciências e das artes o faz, então, assim que se vê livre da autoridade de seus preceptores, viajar pelo mundo, a fim de aprender aquilo que nas escolas lhe era negado. No entanto, a experiência adquirida com essas viagens só fez com que descobrisse a variedade dos costumes que lhe ensinou a duvidar de tudo que lhe fora inculcado por meio de exemplos e hábitos condicionantes. Assim, resolveu procurar em sua própria mente o caminho mais reto que poderia tomar em face das influências deformadoras da sociedade.

O método que procurou seguir a partir daí é descrito na segunda parte. Em sua temporada na Alemanha, Descartes percebeu que os momumentos e edificações que foram projetados por um só engenheiro e construídos sem a intervenção da opinião de terceiros eram os melhor ordenados e acabados. Ao transpor essa imagem para a formação de uma pessoa, imaginou que o raciocínio seria puro e sólido "se tivéssemos o uso inteiro de nossa razão desde o nascimento e se não tivéssemos sido guiados senão por ela" (1). Contudo a maneira cautelosa com que resolve propor o método que irá permitir se livrar das opiniões alheias e buscar em si mesmo os fundamentos firmes para seus pensamentos limita o alcance de suas proposições a uma forma de solipsismo que Ludwig Wittgenstein atacaria em seu argumento contra a linguagem privada ou qualquer tentaviva de encontrar a certeza de uma sensação, por exemplo, que esteja desvinculada de eventos externos ao sujeito. A falta dessa relação com as consequências de um ato decorrente desta sensação, tornaria incompreensivel à propria pessoa e as outras a confirmação de que se trata do mesmo estado mental específico. Mas Descartes não conhecia Wittgenstein - que só nasceria dois séculos e meio depois, aproximadamente - e estava seriamente preocupado em atingir uma certeza que não percebia entre seus contemporâneos. Decidiu então voltar-se para dentro de si e de posse de umas poucas regras adotar um método que portasse as vantagens da Lógica, Geometria e Álgebra, sem o número excessivo de regras que as tornam obscuras.

Dos quatro preceitos adotados, o primeiro recusava qualquer fato tido como verdadeiro que o sujeito não pudesse reconhecer como evidente por si mesmo. O segundo propunha decompor o problema em pequenas partes mais simples, a fim de facilitar sua resolução. Depois disso, em terceiro lugar, ordenar os pensamentos a partir daqueles sobre os objetos mais simples e fáceis de compreender até o conhecimento mais complexo. Por fim, fazer a revisão geral e enumeração de todas possibilidades sem que nada fosse omitido (2).

Inicialmente, Descartes aplicou seu método aos problemas da geometria analítica. O sucesso obtido nesta área o estimulou a abordar todos os campos em que fosse usada a razão, sendo prioritária a investigação de toda filosofia primeira (metafísica). Enquanto fazia a arrumação internar em sua mente, Descartes considerou por bem estabelecer uma moral provisória que lhe permitisse tomar decisões quanto as ações a serem realizadas externamente, no convívio social, também baseada em umas poucas regras:

  1. obedecer as leis do país de origem, manter a religião em que fora iniciado e seguir a opinião das pessoas consideradas mais sensatas;
  2. seguir firmemente e sem vacilações as máximas que fossem em geral consideradas corretas, evitando aquelas que fossem duvidosas;
  3. modificar os desejos que não pudessem ser realizados, em vez de tentar mudar a ordem do mundo;
  4. escolher como ocupação aquela que fosse considerada a melhor, ou seja a própria meditação metafísica apoiada no seu novo método (3).

Oito anos passaram desde quando Descartes teve sua intuição original, em setembro de 1619, até a decisão de se radicar na Holanda, país no qual o povo, depois de longos períodos de guerra, estava "mais zeloso de seus próprios negócios, do que curioso dos assuntos dos de outrem" (4). De 1628 ao convinte fatal de Cristina da Suécia, em 1649, Descartes dedicou-se ao desenvolvimento de seu método e aplicação em todas as formas de raciocínio, a começar pela busca da verdade. Para tanto rejeitou "como absolutamente falso tudo aquilo em que pudesse imaginar a menor dúvida" (5). Concluiu que praticamente todos os seus pensamentos poderiam ser considerados falsos do mesmo modo que as coisas imaginadas durante os sonhos. Contudo, ainda que pudesse pensar que tudo era falso, o próprio fato de estar pensando, isto não era passível de refutação, daí a constatação feita por Descartes: "'eu penso, logo existo'; era tão firme e tão certa que todas as mais extravagantes suposições dos céticos não seriam capazes de a abalar" (6).

Tudo em volta poderia ser confuso ou incerto, o mundo lá fora, o próprio corpo, mas a existência evidente de que há um pensamento, sem o qual todo o resto não teria razão de ser crível era, em fim sua primeira certeza inabalável. A mente poderia existir então como uma substância essencialmente separada do corpo. Por conseguinte, a garantia da existência de algo tão perfeito em um ser imperfeito só poderia acontecer se existisse um ser superior que tivesse inserido essa verdade na mente do sujeito. A própria idéia de perfeição, em suma, só seria possível, a partir da existência de um Deus fiel, mantenedor da natureza externa e de todas as perfeições. O próprio sujeito não poderia ser o autor da natureza inteligente, uma vez que seria composto de mente e corpo, partes dependentes umas das outras. Tal dependência, por ser considerada um defeito, não poderia constituir um Deus, de modo que o sujeito deveria ser dependente deste que possuiria uma existência separada da imperfeição desse ser composto. Dessa forma, a partir da certeza fornecida pelo cogito, Descartes pôde extrair a idéia de perfeição aí contida que o levou a provar, por conseguinte a existência da alma, como coisa pensante (res cogitans), e de Deus, como criador, veraz e garantidor de toda a perfeição, clareza, distinção e verdade das idéias inatas. Nem a imaginação, nem os sentidos seriam capazes de descobrir qualquer coisa de certo, que não passasse pelo entendimento fundado nessas razões.

Gravura do livro de Harvey sobre a circulaçãoAssim, de posse dessas verdades claras e distintas - a existência de sua alma e de Deus -, Descartes julgou poder descartar tudo aquilo que não aparecesse de forma nítida. Além da filosofia, o novo método cartesiano de busca da verdade seria capaz de encontrar na natureza aquelas leis com as quais Deus permitira que fossem feitas mudanças na matéria. Nesse sentido, a quinta parte do Discurso do Método traz a descrição sumária do mundo que Descartes havia impedido de ser publicada e a discussão em torno da biologia de animais e plantas, com destaque para a divulgação da circulação sanguínea descoberta pelo médico inglês William Harvey, em 1628. Os animais por não serem capazes de expressar seus pensamentos por intermédio da linguagem, como fazem os homens, seriam considerados como máquinas movimentadas por uma alma corruptível e mortal.

Na última parte do Discurso, Descartes expõe os motivos que o levaram a escrever e da utilidade que os outros poderiam tirar do livro, já que para evitar qualquer problema com a Igreja, suas idéias foram todas postas em tom meramente pessoal, narrado em primeira pessoa. Não sem antes fazer advertências quanto aos comentadores e divulgadores que distorcessem o raciocínio dos autores ao empregarem palavras difíceis e obscuras em seus comentários. Também são apresentadas as razões da não publicação de seu tratado sobre a Física. Prefere então publicar deste algumas partes - a Dióptrica, os Meteoros e a Geometria - que não fossem tão polêmicas e fomentassem o progresso das ciências no futuro.

As Regras Metafísicas

O novo método apresentado por Descartes em Discurso do Método de maneira introdutória não traz uma defesa exaustiva de suas proposições. Uma discussão mais aprofundada só virá a público com o lançamento de Meditações sobre a Filosofia Primeira - as chamadas Meditações Metafísicas ou simplesmente Meditações -, onde aparece em detalhes a construção do argumento que leva à conclusão sobre a existência de Deus e da alma. Passo a passo o método da dúvida vai retirando do pensamento os conceitos empíricos sujeitos a engano. Depois são postos em xeque as noções oriundas da geometria e da matemática. O argumento do sonho e a figura do "gênio maligno" são mobilizados, a fim de realizarem por completo a limpeza de todo conhecimento duvidoso. A partir daí a suposição da existência de tal entidade serve de garantia para sustentação firme do cogito. Da terceira meditação em diante, vem a defesa da existência de Deus pela simples presença desta idéia na mente, como marca do criador na criatura.

A dúvida metódica de Descartes, ao contrário do método indutivo de Bacon, procurava se despir de toda experiência sensível para chegar aos pressupostos da razão apriori. Mais radical que a simples dedução lógica da geometria de então - a "maneira dos geômetras" a qual Hobbes pôde aplicar, em sua teoria política, partindo de uma base materialista e não de uma mera razão -, Descartes abriu caminho para o racionalismo puro que, na matemática dos séculos seguintes muito ajudou à interpretação científica da natureza. Em ciências, foi um rival à altura do empirismo inglês e, até que o pragmatismo viesse a prevalecer no século XX, colocou o Canal da Mancha como fronteira geográfica a marcar físicamente a separação entre a filosofia insular, em geral naturalista e empírica, e a continental européia, analítica e metafísica. Entretanto, para a filosofia prática restou algo por fazer.

Muito se falou que mesmo depois de estabelecido um método seguro para metafísica, Descartes deixara ainda provisória sua concepção sobre moral. Em todas as Meditações não há sequer uma definição útil de liberdade que possa ser alicerce de uma teoria moral. Só depois de provocado pela rainha Elisabeth da Boêmia é que confessa em carta datada de 04 de agosto de 1645 ser a maior felicidade do homem fazer "uso reto da razão", sendo o estudo sua ocupação mais sublime (7). De fato, o temor da censura impediu Descartes de propor a um público geral a aplicação do seu método, não como uma forma provisória e pessoal, mas como teoria moral definitiva, válida para todos. Entrementes, o método cartesiano trazia inerente uma dificuldade quase intransponível na barreira das mentes de outros seres pensantes. Por adotar uma introspecção como base de sua investigação, o máximo que poderia admitir como certo seria a sua própria existência e a do mundo externo pela idéia de Deus. Não há como, sem muito esforço interpretativo, afirmar categoricamente a existência de uma outra alma no corpo de um outro ser humano com os fundamentos do novo método. Ademais, a fundação de uma moral não está entre os objetivos de suas Meditações, como se conclui da leitura de seu resumo inicial (8).

Com As Paixões da Alma, há a explicação de como a alma pode motivar e movimentar o próprio corpo, através das paixões. Também se encontram recomendações de auto-controle com base na reta razão. Contudo nada há que garanta sua existência em outros corpos apenas pela presença de uma glândula específica - a pineal no caso de Descartes. A moral cartesiana é provisória por aporias do próprio método proposto, pela falta de um fundamento claro e distinto da existência de outros seres racionais além do próprio sujeito.

Sem fazer uso do método da dúvida, mas não menos atento à estratégia de matemáticos e geômetras, Thomas Hobbes conseguiu estabelecer uma moral com bases em princípios que Descartes considerou maus, embora não tivesse como considerar o De Cive uma moral equivocada. Teorias morais de cunho racionalista montadas com o método proposto por Descartes teriam de esperar ainda pelo talento de Baruch de Espinosa (1612-1677) - ou Benedictus de Spinoza - que irá escrever em 1677 uma Ética totalmente extraída do intelecto. Mais tarde Immanuel Kant lançará uma fundametação dos costumes tão racionalista e individualista como os anseios de Descartes, mas com uma solução que este não tinha na manga: o reino dos fins.

Notas

1. DESCARTES, R. Discurso do Método, II parte, p. 35.
2. Veja DESCARTES, R. Op. cit., idem, pp. 37-38.
3. Veja DESCARTES, R. Idem, III parte, pp. 41-44.
4. DESCARTES, R. Ibidem, III parte, pp. 45-46.
5. DESCARTES, R. Ibidem, IV parte, p. 46.
6. DESCARTES, R. Ibidem, idem.
7. Veja DESCARTES, R. Cartas a Elisabeth, 4/08/1645, p. 307.
8. Veja DESCARTES, R. Meditações, "Resumo", pp. 79-82.

Bibliografia

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BLACKBURN, S. Dicionário Oxford de Filosofia; trad. Desidério Murcho et al.. - Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997.

DESCARTES, R. Discurso do Método; trad. de J. Guinsburg e Bento Prado Jr. - São Paulo: Abril Cultural, 1983. (Os Pensadores).

_________. Meditações; trad. de J. Guinsburg e Bento Prado Jr.. - São Paulo: Abril Cultural, 1983. (Os Pensadores).

_________. As Paixões da Alma; trad. de J. Guinsburg e Bento Prado Jr.. - São Paulo: Abril Cultural, 1983. (Os Pensadores).

_________. Cartas; trad. de J. Guinsburg e Bento Prado Jr.. - São Paulo: Abril Cultural, 1983. (Os Pensadores).

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