Aula de Ciência Cognitiva

História da Ciência CognitivaCurso de Ciência Cognitiva

Autor: Antônio Rogério da Silva

Unidade 1: A história da Ciência Cognitiva

Texto de Discursus

Howard Gardner é conhecido do público brasileiro por livros como A Nova Ciência da Mente (Edusp, 1995), As Mentes que Lideram (Artes Médicas, 1996) e o recente O Verdadeiro, o Belo e o Bom (Objetiva, 1999), entre outros. Suas linhas de pesquisa envolvem as ciências cognitivas, a biologia e a pedagogia, área na qual se destacou ao propor a teoria das inteligências múltiplas. É um autor de fôlego. Leciona as disciplinas de cognição, pedagogia e psicologia, em Harvard; neurologia, na escola de Medicina da Universidade Boston, além de ser co-diretor do Harvard Project Zero, onde elabora programas de avaliação com base no desempenho do indivíduo, a fim de desenvolver uma educação voltada para o entendimento e o uso das inteligências múltiplas. O objetivo do Projeto Zero é formular novos currículos e métodos de ensino que levem em conta as diversas personalidades dos alunos.

Em A Nova Ciência da Mente, ele traça a primeira história publicada da ciência cognitiva, desde os pioneiros congressos que trataram do assunto - na metade do século XX - até os trabalhos mais avançados na época de sua publicação, 1987. Nesta trajetória, o aspecto interdisciplinar do novo campo de pesquisa é destacado. Ao fazer isso, disciplinas como filosofia, psicologia, inteligência artificial, lingüística, antropologia e neurologia têm sua temática tradicional, acerca dos problemas para o entendimento da mente, resgatada na perspectiva de uma ciência cognitiva que busca integrar os esforços em torno de um domínio adequado de investigação.

O livro é dividido em três partes, sendo a primeira - intitulada "A Revolução Cognitiva"- voltada para introdução do assunto, o início da ciência cognitiva, sua definição, a controvérsia com os behavioristas, e a invenção do computador eletrônico. Na segunda parte, a perspectiva histórica das seis principais cátedras que desenvolveram teorias sobre o processamento mental narra os debates internos ocorrido ao longo do tempo em cada uma delas. Na terceira parte, o contato próximo com pesquisadores dessas áreas permitiu ao autor descrever o estágio recente dos diversos trabalhos realizados sobre a percepção, a imaginação, o processo de classificação e a racionalidade humana, apontando os desafios ainda a serem enfrentados pelos cientistas. No epílogo, o desdobramento das tendências contemporâneas é esboçado a partir de 1984.

Introdução à Nova Ciência da Mente

Platão (c. 429-347 a. C.) havia insinuado, no seu diálogo Mênon, através do personagem Sócrates (c. 470-399 a. C.) que o ensino da geometria poderia ser feito por meio do método maiêutico até mesmo com um escravo, bastando apenas que este tivesse a mesma compreensão da língua que de seu preceptor. Com isso, Platão pretendia mostrar que a pessoa considerada mais despreparada em uma sociedade possuiria o conhecimento inato para realizar proezas que antes não se manifestavam, como as operações básicas da matemática. A teoria das reminiscências das idéias atribuída a Platão pode ser considerada inaugural na investigação sobre a natureza do conhecimento.

Da perspectiva platônica, o conhecimento era atributo dessa posse inata das idéias da matemática e das ciências exatas em geral. As formas puras das idéias eram obtidas num instante ulterior ao nascimento e nunca da "realidade" aparente dos fenômenos mundanos. Somente pela aprendizagem resgatar-se-ia as reminiscência deste conhecimento inerente à alma humana.

Simultâneo ao platonismo, mas atento às causas materiais, a "teoria do conhecimento" aristotélica, por sua vez, influenciou toda discussão teológica medieval que se seguiu aos antigos. Após o Renascimento, essas discussões filosóficas passaram a ser tratadas à luz dos primeiros resultados obtidos pelas ciências empíricas. René Descartes (1596-1650), John Locke (1632-1704), David Hume (1711-1776) e Immanuel Kant (1724-1804) tentaram conciliar questões teóricas com as experiências relevantes para a compreensão do espírito, ora tendendo para um idealismo, ora para o ceticismo. No fim do século XIX, várias especializações científicas e filosóficas discutiam a natureza da mente humana cada uma segundo um método particular.

Atualmente, a ciência chamada Cognitiva é a herdeira dessa linha de pesquisa histórica. Em suma, busca-se saber quais são as coisas passíveis de serem conhecidas; as características daquele que possui tal capacidade de conhecer; as fontes do conhecimento e as dificuldades de sua obtenção e manutenção, bem como o seu processamento. Como entre os gregos antigos, procura-se definir o que seja forma, imagem, conceito ou palavra e o modo que se relacionam. O papel dos sentidos, do senso comum, da linguagem; as motivações para busca do conhecimento e os seus limites também são alvos de discussão.

As novidades em comparação ao método de investigação tradicional estão na indispensável utilização de experiências que comprovem ou não as hipóteses teóricas apresentadas. A criação de novas matérias tais como a Inteligência Artificial (IA) e de máquinas que simulem o modo de pensar e o comportamento humano, paralelo ao intercâmbio interdisciplinar das informações mais avançadas e o emprego de tecnologia de ponta são aspectos próprios da Ciência Cognitiva. Nesse sentido, o computador é um exemplo de ferramenta indispensável para o exame de teorias sobre a mente, seja na aplicação de novos programas, seja no desenvolvimento de novas técnicas e equipamentos. Os tomógrafos por pósitrons proporcionaram também a observação in locum das atividades cerebrais, apontando com maior precisão as áreas mais importantes para o entendimento do funcionamento do sistema nervoso, sob o ponto de vista cognitivo. Tudo isso, interfere na maneira contemporânea de conceber o mundo e o ser humano(1).

Definição e Domínio

A Ciência Cognitiva foi reconhecida como tal a partir dos anos 70. Uma das atitudes fundamentais do cientista cognitivo é tentar solucionar os problemas epistemológicos humanos com apoio empírico, embora em áreas de desenvolvimento teórico acadêmico, como na filosofia, haja quem conteste isso. Pode-se, inicialmente, esboçar os cincos principais pontos da ciência cognitiva. Primeiro, o tratamento de representações mentais e uma análise de uma perspectiva diferenciada da biologia, neurologia, antropologia ou sociologia. Segundo, a importância do computador como modelo do funcionamento mental, para o bem ou para o mal. Terceiro, por em plano inferior fatores afetivos, históricos, culturais e o contexto do comportamento e pensamento singulares, apesar disso ser controverso. Quarto, estudo interdisciplinar. Por último, abordagem de temas da tradição epistemológica ocidental(2).

Portanto, a história que compõe A Nova Ciência da Mente inclui comunicações e projetos interdisciplinares ocorridos no século XX, nas áreas de filosofia, IA, neurologia, psicologia, lingüística e antropologia, das quais apenas as três primeiras serão abordadas nesse curso. Cada campo de conhecimento teve seus temas mais relevantes para a ciência cognitiva tratado historicamente, segundo seus respectivos pontos de vistas.

Além disso, menciona-se as pesquisas mais próximas ao conceito de uma ciência cognitiva unificada. Trabalhos sobre percepção visual são descritos, assim como os diversos conceitos de racionalidade em confronto. As questões periféricas são pretensamente resolvidas, enquanto as globais permanecem em aberto. A posição de Gardner é apresentada no último capítulo com a revisão dos principais temas da ciência cognitiva e a discussão do paradoxo computacional e os desafios futuros dessa nova especialidade(3).

Referências Bibliográficas

GARDNER, H. A Nova Ciência da Mente; trad. Cláudia M. Caon. - São Paulo: EDUSP, 1995.

__________, _. O Verdadeiro, o Belo e o Bom; trad. Álvaro Cabral. - Rio de Janeiro: Objetiva, 1999.

PLATÃO. Mênon; trad. Jorge Paleikat. - Rio de Janeiro: Ediouro, s/d.

Notas

1. Veja GARDNER, H. A Nova Ciência da Mente, I, p.17-19.

2. Veja GARDNER, H. Op. Cit, I, 19-21

  1. Veja GARDNER, H. Idem,I, p. 21-23.

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