

Resumo
de
BLACKBURN, S. "Organizing
Pratice", in Ruling Passions, pp.1 a 23.
por
Antônio Rogério da Silva
O conceito de quase-realismo foi resumido por Simon Blackburn (1944) -o próprio autor-, num verbete do seu Dicionário Oxford de Filosofia (1994). O quase-realismo sustenta que é possível legitimar o discurso realista, em moral, através de uma adequada perspectiva expressivista ou projetivista da ética. A proposta de Blackburn visa manter o uso de termos realistas, tendo em mente uma posição projetivista enfraquecida. Isto é, as proposições éticas são consideradas projeções de atitudes tomadas pelo agente em situações típicas. Assim, num discurso ético, os enunciados são considerados expressões de crenças, atitudes, emoções ou demais estados relacionados à pragmática -atos de fala relacionados com uma ação.
Em Ruling Passions (Paixões Dominantes, 1998), Blackburn apresenta essa idéia como uma teoria peculiar da razão prática, entendida do ponto de vista particular dos seres humanos e sua ação no mundo, deixando de fora os demais animais, plantas, vírus e minerais. No primeiro capítulo, ele descreve o cenário moral como sendo composto por aspectos emocionais e práticos do pensamento ético, além de avaliar, dessa perspectiva, as possíveis posições antagônicas. Intitulado "Organizing Practice: The elients of ethics" (Prática Constituinte: Os elementos da ética), esse capítulo está dividido em cinco seções sobre a matéria da prática; os estímulos e respostas; a ascensão emocional; a culpa, a vergonha e a rejeição da ética; e, por último, o conflito entre princípios e privacidade.
Um Tema Prático (pp. 1-4)
Ética é definida, logo de início, por suas funções práticas e, como tal, as ações são seu objeto de estudo, ao invés de um conhecimento do que seja o caso -um estado de coisas no mundo. O objetivo desse campo de investigação é, portanto, mostrar as coisas que motivam as pessoas a agir. Os compromissos éticos possui uma especificidade cujo rigor pode gerar atitudes perigosas como as perseguições políticas e religiosas. Diante da sacralização dos códigos morais, muitos tendem a ignorar os apelos ao seu cumprimento, em favor de interesses particulares, por considerarem sua justificação infundada. Amiúde, os juízos morais são usados para coerção interna ou externa, quando se emprega a força constituída e práticas repulsivas. Por conta disso, os críticos têm atacado a ética como um instrumento de dominação. Contudo, imaginar um mundo sem restrições morais é utópico, tendo em vista a condição humana.
Estímulo e Resposta (pp. 4-8)
As ações éticas surgem como respostas a certas configurações do mundo. Tais reações são escolhas feitas pelo agente, segundo sua sensibilidade ética, perante um sistema de representações dado. O processo de aprendizagem ensina à pessoa como reconhecer as situações relevantes que demandam uma resposta moralmente adequada. Em oposição às reações automáticas, a concepção da ética, com base em estímulos e respostas, sustenta que a distinção de um contexto específico para ação moral é feita de acordo com o que se acredita ser o caso. As respostas, então, são identificadas com uma conduta ou expressão de emoções pertinentes. Isso não quer dizer que haja apenas uma via de mão única no processo de deliberação. As situações são complexas e, graças a essa complexidade, as atitudes e emoções podem ocorrer de modo inconsciente, embora elas representem o modo pelo qual cada um organiza suas experiências.
Contra a dualidade entrada e saída para explicar o comportamento humano, alguns filósofos propõem uma interpretação unificada das reações, com base num único conceito ou princípio organizador das situações morais. Porém, isso apenas reduz a caracterização das circunstâncias éticas a um padrão formal mais neutro. A divisão entre estímulos e respostas ajuda à análise crítica da moral, que nem sempre é totalmente visível às pessoas inseridas num determinado cenário. Evitar tal separação é o mesmo que recusar a devida atenção crítica que as emoções e a moral merecem.
Sobre outro ponto, a condição prática da ética leva também a questões cognitivas sobre sua verdade ou falsidade. Entretanto, apesar da importância dada a isso não ser consensual, a parte dinâmica das ações pode ser compreendida em termos de motivações verdadeiras ou pressões reais para agir. Mesmo o respeito a lei moral kantiano pode ser entendido como um elemento dinâmico que reflete um conhecimento aprendido que é posto em prática. Para rebater a rejeição racionalista desses elementos circunstanciais é preciso delimitar aquilo que é significativo para a prática moral, sempre que for necessário.
Ascensão emocional (pp. 8-14)
Nem todas as escolhas e ações dizem respeito à ética, que precisa ter seu território demarcado. Antes de examinar as questões de valor e justiça, primeiro vai-se observar o lado dedicado às reações de cada um. Nesse sentido, os valores interessam à medida que, sem ser capaz de os atribuir às coisas, as pessoas não conseguem agir ou distinguir, numa situação, o que é melhor ou pior fazer. Uma discussão posterior irá definir a necessidade de existir interesses estáveis para que se possa viver.
Por outro lado, os sentimentos que envolvi as transgressões morais se traduzem em ofensas àquilo que é tido como interesse legítimo dos outros. Essas práticas e emoções podem crescer numa escala que tem por base as simples preferências pessoais -gostar ou não de uma determinada ação- e são elevadas aos compromissos éticos por certas atitudes superiores. Assim, num sentido estrito, os sentimentos são entendidos como uma questão de grau variável. Mesmo as meras preferências podem erguer juízos morais, como no caso do consumo de carne pelos católicos ou vegetarianos. Algumas qualificações provocam reações morais que sobem o tom do caráter emocional em discussão. A falta de prazer estético pela harmonia num objeto de arte ou a preferência por práticas violentas e humilhantes acarretam a mobilização de pressões legais e sociais contra quem as defenda. Historicamente, os valores estéticos estiveram vinculados aos morais, embora hoje em dia já não se possa distinguir exatamente o que seja belo ou correto fazer. Projetos que na aparência não prejudicariam ninguém podi ser envolvidos numa escalada emocional, criando uma discussão moral acerca de sua execução, pois não só as ações interessam à moral, mas também os sentimentos daqueles que se sintam afetados por elas. No limite extremo dessa escala, estão os malefícios insuportáveis que possam ser infligidos aos outros.
Por conseguinte, a moralidade de uma sociedade está vinculada às reações emocionais que são manifestas naquilo em que ela censura ou tolera. Nem sempre, contudo, a ética é emocional e, quanto a essa característica, se opõem os que defendem a existência de princípios organizadores. Não obstante, a ética diz respeito plenamente a uma gama dinâmica de práticas naturais. Para evitar as exigências de definições analíticas, argumenta-se que as dificuldades de conceituações precisas surgem devido à natureza multifacetada das emoções e motivações naturais dos agentes morais.
Culpa, Vergonha e a Rejeição da Ética (pp. 14-21)
Os desacordos em ética são essencialmente práticos e não podem ser considerados uma mera discussão por palavras, como querem os críticos da moral. Eles dizem respeito a quais reações são adequadas e devem ser escolhidas. Nesse debate, os termos são refutados porque estão ligados a atitudes e conseqüências que afetam alguns interesses.
As críticas atacam principalmente a tendência de organizar a sociedade com base em rancores. Entretanto, as restrições relacionadas à ética deveriam apontar os casos de abuso de suas aplicações ou sustentar se ela precisa ser rejeitada de todo. O conceito de pecado serve como exemplo no exame de até onde se pode ir na coerção moral. O sentimento de culpa ligado à noção de pecado pode tornar-se obsessivo. Dependendo da maneira como foram educadas, muitas pessoas acabam sendo tomadas por uma culpa neurótica. Quanto a isso, cabem três atitudes: simplesmente ignorar as restrições impostas; aceitá-las e procurar justificar as ações ou reconhecer totalmente a culpa. Tal emoção surge quando a pessoa se sente impossibilitada de defesa ante a revolta dos outros. A vergonha, por sua vez, é similar a culpa, caracterizando-se pela sensação de desgaste frente aos outros, ainda que não haja culpa.
Três diferenças são apontadas entre a culpa e a vergonha: primeiro, a culpa diz respeito à atuação do agente, algo que ele fez ou deixou de fazer, enquanto a vergonha não se aplica, às vezes, a isto; segundo, a vergonha leva ao encobrimento, ao passo que a culpa motiva a reparação do dano causado; por fim, a culpa está ligada à hostilidade potencial que possa recair sobre o agente e a vergonha antecipa internamente as possíveis sanções que os outros venham a impor. O caráter cultural da internalização da culpa permite aceitar variações quanto ao sentimento de responsabilidade em jogo. Desse modo, alguém pode sentir-se culpado pela devastação ambiental causada por sua geração, enquanto outros não.
Para evitar tais sentimentos desagradáveis, poder-se-ia imaginar uma socialização que introduzisse a conduta moral pela imitação das ações sem apelar para a culpa ou vergonha. Todavia, descartar essas emoções diminuiria as motivações para bem agir. Apesar da culpa e da vergonha poderem transformar-se em obsessões neuróticas, elas possui uma função motivadora que coordena as ações deliberadas pelos agentes. Tradicionalmente, estes sentimentos estão associados à civilidade e à boa ordem. Rejeitar totalmente a ética com base nessas críticas aos sentimentos morais não é uma opção que leve a boas conseqüências.
Privacidade e Princípios (21-23)
Outro tipo de crítica feita procura atacar a quebra de espontaneidade das ioções, quando são requeridos alguns preceitos morais. Pois, caso abarcasse todas as formas de relacionamento, a ética acabaria sem qualquer lugar privilegiado na vida das pessoas. Mas isso só atinge às concepções morais que buscam abranger todas as coisas. Há também, dizem os críticos, a necessidade de se preservar um domínio privado para as emoções e interesses particulares. Obrigações e deveres devem ser mobilizados apenas nos casos em que sejam considerados relevantes.
Mesmo assim, defendese que nas melhores sociedades é preciso que as práticas éticas sejam coordenadas e transmitidas aos outros numa discussão pública articulada por meio da educação moral. D'outro modo, pensadores políticos modernos procuraram, preventivamente, adotar a máxima de que todos os seres humanos são perversos, a fim de proteger o corpo social de ataques externos.
Nos capítulos restantes, Blackburn observa o tenso debate existente entre a ética do dever, o conseqüencialismo e a ética das virtudes. Aborda-se, então, a natureza da motivação humana, o egoísmo e o amor-próprio, passando então à consideração dos problemas da liberdade e racionalidade, no confronto entre o naturalismo de David Hume e o racionalismo de Immanuel Kant. Autoridade, ceticismo e relativismo também são confrontados até o alvorecer de um pensamento moral adequado a seus limites e requisitos.
O livro alinha-se declaradamente a uma teoria ética na tradição aristotélica, humeana e liberal. Os passos adotados descrevem, no segundo capítulo, as características das situações morais. No terceiro, a perspectiva expressivista e projetivista explora a hipótese naturalista de que os valores por vezes são expressos quando a voz se levanta contra uma ofensa moral. A seguir, são tratadas as diversas concepções sobre o que é certo ou melhor fazer. Uma teoria da motivação surge, então, nos capítulos 5 e 6, a partir do auto-interesse e da investigação crítica da ação racional adotada na teoria da escolha e dos jogos. No sétimo e oitavo, o sentimentalismo é contrastado ao modelo kantiano de tomada de decisão, argumentando-se em favor da linha de raciocínio de Hume e Adam Smith. Ao final, a conclusão examina os problemas principais da teoria ética, tais como o relativismo e o subjetivismo, à luz da discussão antecedente que pretende, sobretudo, situar a ética num mundo natural.
Referência Bibliográfica
BLACKBURN, S. Ruling Passions: A theory of practical reasoning. - Oxford: Claredon Press, 1998.