Filosofia Contemporânea

Psicologia (DALI, S. Em busca de absolutamente nada)Texto de Filosofia Contemporânea

Autor: Antônio Rogério da Silva

Discursus

O behaviorismo caracteriza-se por ser uma teoria que em psicologia e filosofia evita tratar conceitos relacionados aos estados mentais, desde uma perspectiva introspectiva ou subjetivista. Sua origem está associada aos trabalhos dos pesquisadores Ivan Pavlov e John Watson que buscavam princípios científicos para explicarem o comportamento humano através da observação e experiência laboratorial. Segundo essa doutrina, os estados mentais são construções lógicas formadas por disposições comportamentais.

O psicólogo norte-americano Frederic B. Skinner foi aluno de Watson. Sua principal contribuição ao behaviorismo foi o estabelecimento do conceito de condicionamento operante. Para Skinner, todo comportamento seria sujeito a mecanismos de controle por meio de contingências de reforço de estímulos capazes de provocar uma determinada ação como resposta. Em seu livro The Behavior of Organism (O Comportamento dos Organismos, de 1938), ele relatou suas primeiras experiências de condicionamento de animais em laboratório. Sua maior preocupação era mostrar como alguns princípios básicos do ensino podem explicar todas formas de comportamento humano. Em Tecnologia do Ensino, de 1968, Skinner apresentou suas máquinas de aprendizagem como uma aplicação prática de suas idéias para socialização, educação e terapia do comportamento.

Durante a primeira metade do século XX, o behaviorismo foi uma corrente dominante, porém o quadro começou a balançar com o advento da ciência cognitiva, a partir dos anos 50. Para muitos psicólogos e filósofos cognitivistas, não estava claro que a fórmula "estímulo-resposta" pudesse ser aplicada a todo tipo de comportamento humano. Em muitos aspectos, as pessoas parecem conduzir suas vidas sob um conjunto de crenças e desejos que não podem ser reduzidos ao arco-reflexo behaviorista.

Sobre o Behaviorismo

Quando Skinner escreve Sobre o Behaviorismo, em 1974, suas idéias já não ocupavam o centro das atenções, tendo que disputar espaço com as teses cognitivistas. Por conta disso, todo o livro assume uma postura defensiva, visando mostrar porque o behaviorismo ainda seria uma teoria hábil em explicar adequadamente o comportamento humano, sem precisar apelar para o vocabulário mentalista que se tornara hegemônico.

Skinner tenta, então, delinear uma variante para o behaviorismo que trate dos acontecimentos mentais como um comportamento interno, cuja descrição é acessível à observação experimental. O texto tem por objetivo apontar as causas do comportamento e, nessa investigação, as suposições sobre os sentimentos e outros estados mentais são descartadas. A vinculação da mente ao fato físico e a perspectiva fisiológica, baseada no exame do sistema nervoso, também são criticadas, enquanto as alternativas ao behaviorismo radical, defendido por Skinner, como o estruturalismo e o behaviorismo metodológico têm seus pontos fracos destacados.

A respeito do estruturalismo, ressalta-se a validade de princípios organizadores do comportamento, como o costume, que possibilitam a previsão de ações que ainda não ocorreram. Os padrões de desenvolvimento históricos são outros componentes estruturais importantes para compreensão das mudanças, ao longo do tempo. Entretanto, embora o estruturalismo evitasse uma abordagem mentalista, na visão de Skinner, falta-lhe informações úteis que permitam dizer o porque das pessoas seguirem ou não um hábito qualquer. Tal deficiência deixou margem para manutenção de explicações mentalistas que complementassem a resposta necessária sobre as causas do comportamento. Justamente devido ao fato do estruturalismo dizer apenas como as pessoas agem, não esclarecendo o porque desse comportamento ocorrer(1).

Quanto ao behaviorismo metodológico, característico dos primeiros adeptos do behaviorismo, destaca-se a introdução da história ambiental como um fator decisivo para compreensão do comportamento. Com isso, circunstâncias e comportamento podem ser relacionados e o papel do meio ambiente é realçado. Enquanto a interpretação mentalista paralisasse as demandas mais profundas, por não levar em conta esse fator fundamental, a atenção dada às causas ambientais do comportamento abriu novas questões que não podiam ser mais negadas.

Por adotar essa postura empírica, o behaviorismo metodológico pôde ser associado ao positivismo lógico, corrente filosófica para a qual os acontecimentos mentais não deveriam ser alvo de uma ciência natural, por serem fatos "inobserváveis", do ponto de vista científico. Para os positivistas lógicos, se um autômato pudesse reproduzir o comportamento de uma pessoa, nenhuma explicação mentalista seria mobilizada para o entendimento de seu desempenho, a não ser os estímulos que o fizeram agir de tal modo. O behaviorismo metodológico teria a seu favor a descarga de qualquer filosofia introspectiva. Todavia, esses pioneiros admitiam a existência de fatos mentais, apesar de não os considerarem em suas pesquisas, o que proporcionava a especulação sobre mundos paralelos e um dualismo anacrônico, cujas provas não podiam ser fornecidas(2).

A fim de superar esse problema, o behaviorismo radical, no qual Skinner se filia, propõe restaurar a introspecção sob os limites daquilo que pode ser observado dentro da pele humana. Nesse sentido, busca o behaviorista radical observar o corpo e sua interação com o meio ambiente, equilibrando os acontecimentos externos antecedentes e os ocorridos no mundo privado, interno de cada um. Esse tipo de abordagem facilitaria o estabelecimento de uma linguagem comportamental apta a traduzir os termos mentalistas, sempre do ponto de vista behaviorista(3).

A influência cultural é assim admitida como um dos aspectos importantes da interpretação comportamental e todos os termos mentalistas são traduzidos na linguagem behaviorista. O vocabulário mental é considerado algo que pode ser superado com o esclarecimento do papel do meio ambiente, devendo ser admitido apenas como uma linguagem popular a ser superada com a divulgação adequada das conclusões científicas. O vocabulário técnico não deve ser esquecido quando a discussão assume ares mais precisos e a transição da psicologia popular para o behaviorismo radical é uma mudança histórica a ser efetuada. As conseqüências práticas disso podem ser percebidas, segundo Skinner, na educação, política, psicoterapia e na ciência penal que procuram superar o vocabulário leigo.(4)

Na Própria Pele

Para um behaviorista radical, uma pessoa não passa de um organismo que possui um repertório de comportamento formado pelas contingências de reforço, ao longo de sua vida. Por sua vez, a concepção mentalista considera os membros da espécie humana pessoas, porque eles se comportam como quem possuísse características internas específicas, como sensações, vontade e inteligência. Uma decisão sobre esses dois pontos de vista opostos é tomada a partir de algumas bases de comparação(5).

Um apelo à simplicidade não pode servir de apoio a teses behaviorista ou mentalista, embora os argumentos daquela pareçam mais complexos do que desta. Quanto ao controle do comportamento, segundo Skinner, os behavioristas têm sido mais aptos a induzirem mudanças que os mentalistas. A precisão na previsão do comportamento de uma pessoa também tem maiores chances de ocorrer se a história dela puder ser resgatada, o que as pressuposições mentalistas não poderiam fornecer, pois esta se passa fora da mente.

Uma interpretação behaviorista é mais eficaz na descrição do comportamento de alguém do que uma mentalista, pois apenas observando as ações do indivíduo poder-se-ia identificar as suas idéias e especular sobre sua constituição genética e história ambiental. Esse tipo de interpretação não se detém em uma causa arbitrária como a mente de uma pessoa, mas avança numa cadeia causal infinita que os mentalistas não podem enfrentar sem levar em conta o ambiente vivido.

Para Skinner, além dessas considerações, os behavioristas estariam em condições de estabelecer relações com outras disciplinas, melhor que os mentalistas. O behaviorismo restauraria o papel do indivíduo e as importância das circunstâncias econômicas, políticas e culturais que estão na base de seu comportamento. Na fisiologia, a corrente comportamental proporcionaria o abandono de concepções mentalistas equivocadas, como relações neurais com imagens, lembranças etc. Formalmente, a psicologia sustentada pelos fenômenos subjetivos não constitui uma ciência, o que só o estudo do comportamento poderia construir sem cometer circularidades(6).

A Mente Behaviorista

Ao longo da história, a mente tem sido justificada por intermédio de uma mistura de argumentos anatômicos, físicos e sentimentais. Esse tipo de fisiologia ingênua persiste até nossos dias na tentativa de descrever um sistema nervoso conceitual que procura explicar um comportamento mental que já é pressuposto sem maiores explicações. Essa postura é justamente acusada de circular, ou arbitrária, uma vez que ela procurar delinear a ação humana como uma atividade cerebral que é inferida a partir do próprio comportamento que precisa ser explicado.

O sistema nervoso apresenta dificuldades de compreensão muito maiores que uma abordagem comportamental. Para Skinner, o conhecimento preciso da ação ainda está longe de ser obtido pela fisiologia. Tal como no princípio de incerteza da física quântica, a observação do comportamento, por meio dos neurônios, é perturbada pela própria observação. A manipulação do comportamento é mais eficaz quando há o controle do ambiente, do que quando é feita uma intervenção direta no aparelho fisiológico. Somente um ambiente social melhor poderá livrar o ser humano das guerras, crimes e pressões econômicas.

A fisiologia procura controlar o comportamento desde o esclarecimento dos processos físicos internos de uma pessoa. Nessa análise, uma compreensão importante será dada quando se perceber que tais processos são históricos. Essa ciência mostrará como o organismo é afetado pelas contingências de reforço, tornando mais completa a explicação behaviorista da ação humana(7). A auto-observação de indivíduo contribui para essa perspectiva na medida em que se admite as condições corporais formadoras do comportamento, ao longo do tempo. Ela serviria para ressalvar a importância da análise histórica que fornece a teoria evolutiva desse tipo de sistema fisiológico. Todo conhecimento adquirido por essa introspecção virá da observação de estímulos e respostas, sem relação direta com o sistema nervoso que lhe serve de mediação. Os comportamentos verbal, lógico, matemático e introspectivo foram construídos pelas contingências de sobrevivência e não fazem parte de um conjunto de dotes inatos, oriundos da seleção natural especialmente para tal fim, mas que surgiram por outras razões naturais(8).

A fisiologia começou sua pesquisa a partir de inferências sobre o funcionamento do sistema nervoso. Em seguida, a observação direta substituiu o método inferencial. Para manter as inferências como válidas, leis e princípios gerais foram propostos sem dar muita ênfase às partes do sistema nervoso. Entretanto, por ainda desviar a atenção para o interior da cabeça, tal sistema nervoso conceitual, como o estudo da consciência, afastou-se da história genética e pessoal. O estudo do sistema nervoso é importante para o entendimento dos processos de pensamento, desde que estes sejam tidos por processos comportamentais e não metáforas questionáveis sobre o funcionamento interno da mente(9).

Referência Bibliográfica

BLACKBURN, S. Dicionário Oxford de Filosofia; trad. Desidério Murcho et al. - Rio de Janeiro: Zahar, 1997.

SKINNER, F.B. Sobre o Behaviorismo; trad. Mª da P. Villalobos. - São Paulo: Cultrix, 1988.

Notas

1. Veja SKINNER, F.B. Sobre o Behaviorismo, cap. 1, pp. 13-16.

2. Veja SKINNER, F.B. Op. Cit., idem, pp. 16-18.

3. Veja SKINNER, F.B. Idem, ibdem, pp. 18-20.

4. Veja SKINNER, F.B. Ibdem, ibdem, pp. 20-22.

5. Veja SKINNER, F.B. Ibdem, cap. 13, p. 177.

6. Veja SKINNER, F.B. Ibdem, idem, pp.178-180.

7. Veja SKINNER, F.B. Ibdem, ibdem, pp.180-183.

8. Veja SKINNER, F.B. Ibdem, ibdem, pp.183-184.

  1. Veja SKINNER, F.B. Ibdem, ibdem, pp.184-185.

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