

Comunicação e Jogos numa Ética Naturalizada
por
Antônio Rogério da Silva
O tema tratado aqui diz respeito à formulação de uma Ética naturalizada com base na comunicação capaz resolver tanto os problemas de justificação de uma norma moral como os de sua consequente aplicação, sem apelar para pressupostos idealizantes. A Ética do Discurso tem sido, salvo engano, até agora, a principal teoria moral baseada na comunicação e se inscreve entre aquelas que procuram justificar suas normas intersubjetivamente. Contudo, esta teoria não consegue motivar os falantes a cumprirem de modo consequente no mundo da vida, o consenso estabelecido numa situação de fala ideal. Para tornar essa teoria aplicada, faz-se necessário apresentar um meio pelo qual a relação entre diversos indivíduos com interesses conflitantes possa gerar morais efetivas. A solução adotada aqui partiu da intuição que a continuidade entre interesses particulares e morais é capaz de motivar todos a agirem conforme normas universais, ao mesmo tempo que objetivos pessoais são satisfeitos. Entrementes, a compreensão da base material formadora dos interesses humanos obrigou o estudo da teoria evolutiva da consciência e da Teoria dos Jogos (TJ) como explicações do modo pelo qual as estratégias desenvolvidas por seres vivos preocupados em sobreviver e reproduzir podem chegar a um equilíbrio. Tal equilíbrio, quando assenta sobre estratégias conjuntas ótimas produzem cooperação e normas válidas moralmente. A comunicação, nesse processo, permite o acesso às melhores estratégias. Logo, a busca da união da racionalidade instrumental com a comunicativa, passou a ser a plataforma de uma ética da comunicação naturalizada, que se presume bem sucedida ao apontar normas morais que motivem sua realização entre seres dotados de interesses pessoais.
Desde 1967, pelo menos, Karl-Otto Apel e Jürgen Habermas, em diversos textos, têm trabalhado no sentido de estruturar a forma de uma teoria da comunicação que sirva de apoio a uma resposta à crítica totalizante da razão e sustente a visão pragmática de uma razão comunicativa em que a intersubjetividade exerce o papel chave na superação dos desafios de um já desgastado paradigma do subjeito. Nessa teoria, distingue-se o agir comunicativo do agir estratégico, sendo o primeiro uma ação voltada para o entendimento mútuo onde a comunicação bem sucedida produz acordos entre os falantes sobre o significado das mensagens transmitidas, como um fim em si mesmo. Esse tipo de ação, também possuiria normas que guiariam o comportamento dos atores, membros de um grupo social, que partilham valores comuns, ao passo que, no agir estratégico, um agente solitário pretende influenciar as ações dos outros, segundo seus interesses particulares não generalizáveis. O agir estratégico teria por meta atingir um fim fora do domínio linguístico, fracassando ou tendo êxito se encontrar ou não os meios adequados para conseguir realizar esse fim. Destarte, a comunicação pode servir somente para provocar efeitos perlocucionários, ações dos ouvintes em consequência daquilo que foi dito.
Por discurso, entende-se uma relação entre duas ou mais pessoas estabelecida através de conversação argumentativa, onde cada parte está disposta a defender suas opiniões frente aos demais. O aspecto intersubjetivo da troca de justificações é constitutivo dos acordos acerca dos enunciados com pretensões de validade problematizadas. Dos agentes, exige-se que sejam falantes competentes de uma linguagem natural comum. Os temas tratados são retidados do pano de fundo do mundo vivido. De modo que, um discurso prático seja aquele no qual: (a) os imperativos de uma pessoa reivindicam que um enunciado com pretensão de correção ou avaliação controversa seja justificado perante o outro, (b) por meio de razões; (c) nas quais regras de inferência sustentadas por princípios de ação ou avaliação operam sobre (d) os valores dos indivíduos, examinando as consequências e máximas concomitantes.
Para que o consenso obtido dessa maneira seja considerado válido, alguns requisitos são exigidos, como o preenchimento dos pressupostos transcendentais pragmáticos, a fim de que o processo comunicativo siga seu curso sem distorções. Tais requisitos dizem respeito ao modo pelo qual os participantes do discurso devem se comportar, numa situação de fala ideal. São quatro as condições do discurso ideal: (1) publicidade e a inclusão de todos concernidos; (2) as mesmas chances para as partes contribuírem no debate; (3) compreensão do significado do que está sendo dito e (4) a comunicação livre de qualquer coerção, sendo o consenso sobre as pretensões de validade restrito apenas pela força argumentativa(1).
Uma vez admitido que as deliberações práticas tomam essa perspectiva de justificação imparcial, a fundamentação moral é concebida na forma de uma argumentação expressa pelo princípio do discurso (D) que só admite o discurso prático como fórum de validação de normas e que gera um princípio de universalização (U), onde as consequências previsíveis de uma norma válida sobre os interesses e orientações de valores de cada indivíduo podem ser aceitas juntamente, por todos concernidos.
Contudo, a constituição moral da pessoa leva a outros obstáculos quanto ao aspecto cognitivo da teoria. Ao proporem normas, as pessoas apresentam as razões que as motivariam a adotar aquelas consideradas moralmente válidas. Mas para isso, faz-se necessário que, além de uma capacidade comunicativa internalizada, os sujeitos tenham passado por um desenvolvimento moral, durante o processo natural e social de amadurecimento que transforma a criança em adulto.
[P]rocessos de socialização geram cada vez mais competências formais (...), estruturas cognitivas, que sempre se separam mais dos conteúdos concretos. Cada vez mais as pessoas adquirem uma identidade abstrata do Eu. Capacidades para um autocontrole pós-convencional são a resposta à expectativa social de decisões autônomas e de projetos de vida individuais. (...) Os processos de integração social tornam-se cada vez mais desconectados das tradições naturais. Quanto às instituições, princípios morais gerais e procedimentos de positivação jurídica substituem valores e normas. E as regulamentações políticas da vida em comum tornam-se cada vez mais dependentes das corporações deliberantes do Estado constitucional, bem como dos processos de comunicação na sociedade burguesa e na esfera pública política (HABERMAS, J. "Concepções de Modernidade" in A Constelação Pós-Nacional, III, pp. 193-194).
Na interpretação de Habermas, o desenvolvimento linguístico que acompanha o amadurecimento moral incorpora os interesses emancipatórios que se concretizariam no estágio pós-convencional. O falante competente teria, nessa ocasião, a oportunidade de colocar as razões que fazem do entendimento mútuo o fim de todo discurso normativo. O processo de comunicação seria capaz de evitar as distorções do mundo da vida sobre os valores éticos, separando estes dos valores morais pertinentes a todos os interessados em encontrar uma norma válida universalmente.
Noutro campo de pesquisa, as reações dos agentes, examinadas em “jogos” como “Dilema dos Prisioneiros”, “Batalha dos Sexos”, “Jogo do Ultimato” e “Escalada”, para mencionar apenas os mais conhecidos na Teoria dos Jogos, revelaram aspectos do relacionamento humano cuja abordagem era antes considerada intratável de forma matemática. Cooperação, exploração, traição, egoísmo, altruísmo, sagacidade, estupidez, fraqueza de vontade, coragem e covardia são alguns tipos de comportamento e traços de caráter que são focalizados na análise formal dos choques de interesses dos indivíduos envolvidos num empreendimento comum. Diante das várias alternativas de atuação observadas, a TJ revelou os elementos que atuam na escolha de condutas que possam ser consideradas válidas, levando em conta o grau de satisfação contemplado pelos concernidos, em sua condição natural. A partir disso, a TJ colocou-se como um instrumento precioso à disposição das ciências sociais, sobretudo, para a filosofia prática, por permitir o acesso a uma interpretação formal e racional que indica soluções passíveis de atribuição a indivíduos reais, dotados de estratégias factíveis prontas a assumir um valor moral reconhecido por todos.
O termo “jogos” com o qual a teoria foi nomeada tem sido fonte de alguns equívocos quanto aos seus objetivos. O engano dessas interpretações desfaz-se quando os jogos são compreendidos como uma interação entre agentes (racionais ou não)(2) regida por regras específicas, cujos resultados dependem também das decisões que cada um fará do início ao fim da partida. Cada movimento se dá no instante em que o jogador concretiza uma escolha livremente, dentro das restrições absolutas determinadas pelas regras ou comandos que delimitam o jogo e segundo o conjunto de informações disponíveis. As regras definem se os jogos são cooperativos ou não pela permissão de coalizões ou proibições de troca de informações entre as partes, embora sempre haja a possibilidade de sinalização e observação de uma convenção preliminar que induza um movimento por um resultado em equilíbrio. A busca pela maior utilidade não implica necessariamente numa exploração de uma parte pela outra e na maioria das vezes depende de uma cooperação e do entendimento mútuo, no caso de seres racionais, sobre a melhor estratégia conjunta a ser realizada pelos jogadores.
Nos jogos de soma zero entre dois participantes, os interesses pessoais são totalmente opostos: para um ganhar, outro terá de perder. Contudo, um superjogo que permita uma série de lances consecutivos abre espaço à cooperação, mesmo de modo indireto, nos jogos não-cooperativos, onde o conluio inicialmente impedido, cede à disposição em cooperar sinalizada por movimentos repetidos com reciprocidade, mas para isso é preciso que sejam de soma variável, diferente de zero.
As ações de agentes racionais caracterizam-se por serem estratégicas e não paramétricas. Isto é, as escolhas de linhas de ação levam em conta o fato dos indivíduos estarem inseridos em um meio inconstante que varia em função de suas decisões. À primeira vista, a condição estratégica pode gerar uma indesejável regressão ao infinito, no momento em que alguém, ao selecionar uma conduta, tem de considerar as reações dos outros, sabendo que estes, por seu turno, também refletiram sobre suas estratégias, a partir dessa concepção partilhada de racionalidade. Para evitar a inação, as matrizes construídas devem permitir a percepção de um ponto de equilíbrio, onde recaiam as escolhas racionais, únicas, definíveis e previsíveis.
Um ponto de equilíbrio é o resultado do encontro de duas estratégias em equilíbrio, que nada mais são do que uma linha de ação completa para todo jogo que um indivíduo adotará quando nenhuma parte conseguirá vantagem alguma por mudar isoladamente de posição(3). Eventualmente, alguns jogos mostrar-se-ão sem um ponto de equilíbrio aparente ou com vários disponíveis. A ausência de equilíbrio exige que se use como artifício a construção de estratégias mistas que produzam a estabilidade desejada.
A função de utilidade corresponde a uma quantificação das preferências de uma pessoa, cujo valor muda para cada indivíduo interessado em sua maximização. Refere-se não apenas ao ganho monetário, mas à satisfação psicológica de alguém ao atingir um determinado resultado esperado. As preferências hierárquicas e transitivas de um agente podem ser reveladas pelo próprio sujeito ou observando–se seu comportamento ao longo do tempo. Tudo isso, presumindo-se que é viável alguém hierarquizar suas preferências, preservando a sua transitividade. Caso contrário, ter-se-ia de admitir uma irracionalidade ou imperfeição na eleição das preferências que exigiriam um outro modo de enfrentar o problema acerca da natureza do agente.
A aplicação dos modelos de jogos em testes de laboratório, além do raciocínio estratégico, revelou comportamentos, cuja explicação sempre foi de difícil trato tanto para psicologia, como para filosofia. Alguns paradoxos foram encontrados e atitudes até então consideradas incompatíveis puderam ser melhor compreendidas através dos mecanismos dos jogos. Afinal, altruísmo e egoísmo mostraram ser apenas variantes da função de utilidade numa escala de valores em que a preferência de alguém se aproxima mais ou menos da cooperação ou exploração do outro, segundo sua maior ou menor aversão ao risco.
De todos os arquétipos de personalidade, o do homem econômico é o que vem assombrando os contratualistas e de um modo geral, toda ética, sob seus vários disfarces. Entretanto, se de fato, isoladamente, como Robinson Crusoé numa ilha deserta, todos os seres humanos agiriam no intuito de maximizar ao extremo a sua utilidade, fazendo uso total da capacidade racional, isso não quer dizer que esse problema técnico tenha de se reproduzir, sem modificações fundamentais, num ambiente social no qual outros entes semelhantes procuram agir da mesma maneira(4).
A impossibilidade de prever e controlar todas as variáveis de uma interação social faz do homem econômico um ser fantasioso. Ainda que alguns indivíduos se aventurassem em seguir uma estratégia absolutamente egoísta, as reações imprevistas fora de seu controle impediriam efetivamente a meta do valor máximo. Os piores resultados são esperados quando há o confronto de estratégias egoístas puras do tipo empregada por uma pessoa isolada na luta pela sobrevivência. Uma visão mais atenta do problema das escolhas das melhores linhas de ação nota que a ameaça do egoísta racional não passa de um temor injustificado, pois o convívio social neutraliza suas decisões, restringindo-as a uma forçosa cooperação, a despeito de suas intenções. Jogos sociais –aqueles que dependem da interação com o outro– impedem a determinação subjetiva de uma solução exclusiva, por parte do agente.
O jogo conhecido como “Batalha dos Sexos” foi tratado como um modelo típico de jogos não-cooperativos. Nele, não há nenhum ponto de equilíbrio dominante que seja obtido apenas por estratégias puras(5). Isto é, não há um resultado acessível que seja o encontro de duas estratégias, do qual ninguém teria maior vantagem em mudá–lo unilateralmente (Figura 1)(6).
| | Jogador II |
| Estratégias | a | b |
| Jogador I | A | 3, 2 | 1, 1 |
| B | 0, 0 | 2, 3 |
| Figura 1 - Bi-matriz da Batalha dos Sexos |
Se cada um seguir sua principal estratégia pura, o máximo que atingirá será 1 (hum), indo os dois sozinhos para seus programas favoritos, I para A, II para b. Ceder um pouco poderia ser uma boa idéia, não fosse o risco de ambos acabarem só no pior dos mundos, II em a, I no B(7). A ausência de um ponto de equilíbrio evidente provoca situações como essas, por muitos consideradas absurdas. A fim de evitar o impasse e a inação, a busca de estratégias mistas faz-se indispensável com o uso das estratégias existentes numa taxa de frequência definida.
Em jogos de soma zero, a solução minimax ou maximin é a melhor alternativa a ser adotada diante da oposição do outro. Ela minimiza o risco do agente, garantindo-lhe o maior ganho entre os menores resultados disponíveis. Em outras palavras, “é o ganho mínimo que ele pode assegurar para si, independente das estratégias dos demais jogadores, escolhendo prudentemente a sua estratégia”(8). Porém, a Batalha dos Sexos não é um jogo de soma zero.
Encarado como um jogo não-cooperativo, onde a comunicação é proibida, a estratégia mista maximin resultante gera resultados aquém dos que podem ser obtidos quando a Batalha dos Sexos é jogada de modo cooperativo repetidas vezes –o par (1.5, 1.5) surge da aplicação das estratégias minimax (¾, ¼), para I, e (¼, ¾), para II(9). Neste caso, é razoável supor que os maiores ganhos conjuntos sejam repartidos igualmente pelos jogadores –(3, 2) e (2, 3), ocorrendo metade das vezes, levam ao resultado (2.5, 2.5), em equilíbrio. Como anteciparam Luce e Raiffa, “isto é possível se os jogadores atuam cooperativamente por conta de uma comunicação prévia”(10).
A forma de comunicação prevista por Luce e Raiffa para cooperação entre duas pessoas está muito próxima ao conceito de “conversa barata” (cheap talk), no qual (a) as mensagens trocadas entre os jogadores estão livres de distorção (neologismos e incredibilidade); (b) todos os acordos são compromitentes (binding) e reforçados pelas regras do jogo; sendo que (c) a matriz de resultados não é alterada pela ocorrência da conversa prévia. Uma fase de conversa barata, antes das escolhas serem efetivadas, permite que o espaço concavo das estratégias não-cooperativas seja ampliado para uma figura convexa, cujo limite nordeste é a fronteira ótima, onde ninguém pode sozinho obter um ganho maior sem diminuir o saldo do outro(11) (Figura 2).
As simplificações iniciais da TJ foram gradativamente sendo aperfeiçoadas à medida que o debate sobre os paradoxos observados em experimentos laboratoriais avançavam. Com isso, essa teoria acabou por detalhar e explicar formalmente conceitos morais de uma justiça distributiva, numa perspectiva materialista e instrumental, o que até então não era possível, sem precisar apelar para uma idealização do mundo real. Ao considerar a natureza precária dos agentes, a TJ ressalta que a razão imperfeita, convenções, a comunicação, exigência de reciprocidade, demanda por justiça e o fator tempo são tópicos que viabilizam a instituição da cooperação mesmo entre agentes considerados egoístas.
Na Teoria do Agir Comunicativo, o papel da comunicação é central, enquanto na Teoria dos Jogos esse é apenas um dos vários capítulos tratados sob o modelo de jogos. Na primeira, a comunicação possui como fim próprio o entendimento mútuo que produz o consenso sobre normas de ação que –no contexto de uma ética discursiva– são consideradas válidas moralmente, isto é, possuem como características a universalidade, a cognição e o aspecto formal. Para os teóricos dos jogos, no entanto, a comunicação serve como um meio para gerar e refinar estratégias em equilíbrio que maximizem a utilidade dos agentes envolvidos numa interação qualquer. No entanto, este tipo de abordagem estratégica ou instrumental da comunicação é expressamente rejeitado pelos defensores da Ética do Discurso, uma vez que representaria uma interferência indevida das “relações de troca (...) nos âmbitos nucleares da comunicação das esferas privadas ou públicas do mundo da vida”(12). Essa forma de uso estratégico da comunicação ajudaria a fomentar “patologias sociais” evidenciadas no desequilíbrio entre solidariedade, dinheiro e poder, considerados por Habermas as três forças que mantém unidas as sociedades modernas(13).
Destarte, Habermas reproduz contra os efeitos perlocucionários da comunicação instrumentalizada a crítica à razão totalizante que ele mesmo resume como um ataque à desorganização da totalidade orgânica dos “mundos da vida integrados eticamente”(14). A razão instrumental auto-reflexiva, ao abordar as estruturas de uma subjetividade dividida e apartada do seu contexto social acabaria por transformar o sujeito em objeto de um processo paulatino de alienação que caracteriza as sociedades ocidentais contemporâneas. Para Habermas, apenas uma razão comunicativa que adotasse o ponto de vista intersubjetivo inerente à constituição linguística e pragmática do mundo da vida que visa a intercompreensão, poderia evitar a desagregação e atomização crescente, pois a força transcendente da discussão exigiria que a tomada de posição do sujeito fosse feita em decorrência da aceitação ou rejeição feita por uma outra pessoa. Assim, as perspectivas complementares e intercambiáveis dos falantes e ouvintes reforçariam os sentimentos de solidariedade, reagregando os diversos horizontes de modo que uma pessoa aprendesse com a outra, ascendendo às relações simétricas entre agentes iguais(15). Com isso, se preservaria o agir comunicativo da crítica geral à razão, enquanto se recusa as consequências desagradáveis do agir estratégico na comunicação, restringindo-a a limites pragmáticos e ilocucionários, atos que realizam função de linguagem.
Porém, essa tática evaziva não livrou a Ética do Discurso de ser vista como uma concepção dualista e idealizante da comunicação que também desenraiza os falantes dos contextos vitais, gerando normas consensuais deficientes no aspecto motivacional, embora justificadas formalmente. O tipo de situação ideal que Michael Walzer caricaturou como “uma conversação numa nave espacial”(16).
A Teoria dos Jogos, por seu turno, apesar de não pretender legitimar estratégias morais, foi capaz de notar empiricamente as limitações que uma postura egoísta e racional irrestrita teria de enfrentar quando levada às últimas consequências. No fraco sentido normativo, a teoria deveria ser compreendida como instrutora do comportamento de pessoas que desejem obter certos fins, mas não no sentido absoluto.
[A teoria] prescreve, para dadas hipóteses, cursos de ação a fim de atender os resultados de acordo com certas propriedades formais “ótimas”. Essas propriedades podem ou não ser julgadas pertinentes em algum conflito de interesses dado no mundo real. Caso sejam, a teoria prescreve as escolhas que precisam ser feitas para ganhar esse “ótimo” (LUCE, R. D. & RAIFFA. H. Games and Decisions, p. 63).
Portanto, uma das contribuições mais importantes da Teoria dos Jogos, para a ciências sociais em geral, foi a análise precisa dos efeitos que uma deliberação unilateral pode acarretar ao agente egoísta racional. Ao agir como único parâmetro capaz de intervir ativamente em um meio ambiente tido com passivo, o homo oeconomicus acaba, por vezes, obtendo o pior resultado esperado, enquanto agentes que percebem o outro como um indivíduo semelhante em sua capacidade de raciocínio podem atingir recursivamente as escolhas mais vantajosas ao considerarem as reações previsíveis de seu parceiro a sua possível ação. Os agentes estratégicos podem assim aprender que tipo de conduta mais eficaz deve ser adotada ao considerar a posição de um outro semelhante. Em geral, a postura desse agente maximizador restrito encontra melhores soluções em equilíbrio do que aquele que age parametricamente ao ignorar os interesses dos outros e busca sozinho maximizar sua utilidade de modo irrestrito. Os diversos modelos de jogos inventados mostraram as dificuldades intransponíveis que o agir instrumental tem de enfrentar em seu próprio meio econômico.
Se, por um lado, a tentativa habermasiana de salvaguardar a razão comunicativa das críticas de atomização alcançou algum êxito ao explicar como normas podem ser validadas intersubjetivamente, por outro, acabou por recolocá-la fora do domínio do cotidiano –fracionando a Ética do Discurso em duas partes: de justificação e de motivação. Enquanto isso, embora a Teoria do Jogos tenha se tornado uma ferramenta de análise das mais empregada no mundo acadêmico e científico, mostrando com nitidez os problemas motivacionais que levam os agentes a decidirem de uma maneira racional ou não, ela ainda não se habilitou a um estatuto moral apto a propor normas morais, por falta de elementos conceituais que vinculem as escolhas dos jogadores a consensos universais. Jogos com comunicação permitem, entretanto, que as pontes sejam lançadas entre a Ética do Discurso e a Teoria dos Jogos, tendo como cenário a teoria evolutiva da qual emergem as propriedades cognitivas que permitem aos seres vivos fazerem da comunicação a arma mais eficaz para solução de conflitos sem o emprego da força, na maioria das circunstâncias.
A comunicação humana é um poderoso mecanismo natural à disposição da espécie. Numa concepção mais ampla, a comunicação visa provocar no receptor a motivação para agir de acordo com os fins comunicados pelo emissor. Nesse sentido, o processo comunicativo não se reduz a uma estrutura linguística bem formada ou a uma pragmática restrita à compreensão do significado dos atos de fala. Além disso, a comunicação natural existe por otimizar a realização de objetivos que atenderam os interesses de todos envolvidos na sua evolução. Quando todos concernidos aceitam agir em função de estratégias conjuntas em equilíbrio, então, normas válidas universalmente são reconhecidas como resultado de um processo formal construtivo. A formalização da comunicação pela Teoria dos Jogos e o princípio de universalização da Ética do Discurso podem ser interpretados como complementares na concepção de uma ética comunicativa naturalizada. Assim, uma ética naturalizada pode justificar e motivar o cumprimento de suas normas, pelo uso de uma comunicação abrangente.
A comunicação natural proporciona à Ética do Discurso o ambiente pelo qual, através do modelo de jogos falados, os agentes podem ser motivados a agir conforme normas válidas consensuais que coincidam com os equilíbrios comunicativos das estratégias factíveis. Ao passo que, para Teoria dos Jogos, a comunicação produz o refinamento dos equilíbrios disponíveis, apontando aqueles que são passíveis de justificação, no sentido moral(17). Portanto, modelos de jogos com comunicação são uma ferramenta indispensável para formação de uma ética naturalizada composta por princípios de uma racionalidade comunicativa, complementada pelo agir estratégico, que se queira aplicada.
Notas
1. HABERMAS, J. The Inclusion of the Other, cap. 1, IX, pp. 41 e ss.
2. Trata-se de um agente dennettiano. Isto é, uma unidade que atua. Seus atos são quaisquer movimentos que influenciem futuras alocações de recursos. É racional se, perante estratégias de outros, escolhe a sua em função do mais alto resultado disponível. A natureza é um agente irracional, fonte de indeterminação probabilística sobre os resultados.
3. Veja DAVIS, M.D. Teoria dos Jogos, cap. 2, p. 27 e cap.3, p.41.
4. Cf. Von NEUMANN, J. & MORGENSTERN, O. Theory of Games and Economic Behavior, cap. I, § 2.2.2 a 2.2.4, pp. 10-12.
5. Um equilíbrio dominante é uma combinação de estratégias que proporciona ganhos maiores ou iguais a qualquer outro equilíbrio existente.
6. Veja DAVIS, M.D. Op.cit., cap.3, p. 41. Por convenção, o resultado atribuído ao jogador da linha é o da esquerda e o do jogador da coluna, o da direita, em cada célula.
7. O modelo padrão da Batalha dos Sexos atribui o mesmo valor para essa circunstância e a em que cada um segue só para sua opção preferida. A meu ver um desencontro que acabasse por levar, simultaneamente, os jogadores sozinhos a lugares opostos de seus interesses está abaixo dessa e nenhum proveito seria obtido pelas partes que demonstrassem tanto desentendimento e confusão. David Kreps contrói a matriz da Batalha dos Sexos de modo semelhante ao feito aqui no seu livro Game Theory and Economic Modelling, cap. 5, p.101.
8. SIMONSEN, M. H. Teoria dos Jogos, § 1.5, p. 20.
9. Em Lutas, Jogos e Debates (1960), Anatol Rapoport ensinou um método prático para se chegar a uma estratégia maximin a partir de modelos bimatriciais: o jogador da linha deve encontrar "a diferença absoluta entre as notações correspondentes nas duas colunas" –por exemplo, para o jogador I as diferenças são (1, 3)–; notar "a razão da segunda diferença em relação à primeira" –o que produz a proporção 3:1 e a frequência ¾ para a estratégia "A" e ¼ para a estratégia "B". O jogador da coluna procede de modo análogo, calculando "as diferenças absolutas dos números correspondentes nas duas linhas". Por ser um jogo simétrico, os resultados são iguais para ambos jogadores, respectivamente. O resultado da aplicação dessas frequências para I, sempre que II jogar "a", será ¼(3 x ¾ + 0 x ¼) = 0,5625, que somado às vezes que II jogar "b", ¾(1 x ¾ + 2 x ¼) = 0,9375, produz o total de 1,5 utiles de I para esse jogo e vice-versa para o jogador II, que terá a mesma soma, quando ambos usarem suas estratégias mistas maximin (veja RAPOPORT, A. Lutas, Jogos e Debates, cap. IX, p. 123).
10. LUCE, R. D. & RAIFFA, H. Games and Decisions, cap. 6, § 6.2, p. 116.
11. Veja LUCE, R. D. & RAIFFA, H. Op.cit., cap. 6, § 6.1 e 6.2, pp. 114-116.
12. HABERMAS, J. "Concepções da Modernidade" in A Constelação Pós-Nacional, p. 195.
13. Veja HABERMAS, J. Op. Cit., p.195.
14. HABERMAS, J. Idem, I, § 3, p. 173.
15. Veja HABERMAS, J. Ibdem, III, pp. 192 e ss.
16. Segundo Walzer, "as argumentações procedimentalistas não nos ajudam (...) por não difereciarem no tempo e no espaço, os conjutos de princípios particulares de arranjos políticos ou constitucionais" que formam as sociedades em um determinado momento histórico. Não haveria, então, princípios que regulassem todos os regimes e ações sociais em todas circunstâncias. Mas ainda que houvesse um meio abstrato de cobrir a discussão com um véu que separasse a deliberação sobre normas de seu contexto, nada garantiria que acordos obtidos fossem cumpridos, quando a cortina se levantasse e novamente as pessoas se vissem nos cenários pertubadores que originaram as demandas por legitimação ou melhor distribuição de direitos. Veja WALZER, M. Da Tolerância, pp.3 e ss.
17. A Teoria dos Jogos deixou de ser um capítulo exclusivo da economia e da matemática. Desde cedo, psicólogos, biólogos, sociólogos e, atualmente, neurocientistas vêm adotando os modelos dos jogos descritos pela teoria no intuito de abordar de forma empírica os conceitos mais difíceis de serem tratados experimentalmente –confiança, reciprocidade, acrasia, timidez, irracionalidade, equidade etc–, a ponto do Nobel de economia de 2002 ter sido concedido ao psicólogo Daniel Kahneman, por sua contribuição ao estudo do julgamento dos agentes diante do risco e incerteza. A Teoria dos Jogos tem a vantagem de ser uma teoria aberta à participação de outras áreas afins às escolhas racionais, sendo um instrumento indispensável para pesquisas interdisciplinares. Alguns filósofos já perceberam sua importância. Richard B. Braithwaite (1900-1990) foi o primeiro a tratar da Teoria dos Jogos numa perspectiva filosófica em Theory of Games as a Tool for the Moral Philosopher (Teoria dos Jogos como uma Ferramenta para o Filósofo Moral, 1955), onde propôs um princípio equitativo, segundo orientação fornecida por uma fronteira de eficiência. John Rawls (1921-2002), em Uma Teoria da Justiça (1970), utilizou vários conceitos, como estratégia maximin e a noção de uma posição original como jogo de soma variável. David Gauthier escreveu uma teoria contratualista renovada apoiada na Teoria dos Jogos, em Morals by Agreement (Moral por Acordos, 1986). Além disso, Robert Axelrod lançou uma Teoria da Cooperação, a partir do Dilema dos Prisioneiros Iterado, que abriu novos rumos para estudos experimentais na ética e na política, coisa que não se imaginava passível de testes laboratoriais. Fato reconhecido como relevante por filósofos como Daniel C. Dennett, em A Perigora Idéia de Darwin (1997).
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