Filosofia Contemporânea

Ciência Cognitiva (PALATNIK, A. Aparelho Cinecromático)Texto de Filosofia Contemporânea

Autor: Antônio Rogério da Silva

Discursus

Daniel Clement Dennett (1942) é um filósofo norte-americano que se destaca na pesquisa relacionada à teoria da mente, não só por suas teses, mas também por sua participação efetiva em projetos de inteligência artificial, como na série de robôs chamados COG, ao lado de lingüistas, psicólogos e matemáticos, no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT). Desde 1969, ele vem lançando livros e artigos sobre a consciência, psicologia popular e intencionalidade. Sua maior contribuição ao debate cognitivo diz respeito à concepção de "postura intencional" exposta em maiores detalhes na obra The Intentional Stance (A Instância Intencional, 1987).

Trata-se, então, de saber qual a vantagem de atribuir intenções a objetos inanimados e se isso de fato corresponde à existência real de estados mentais. Em Tipos de Mentes (1996), um de seus textos mais recentes, essa questão é retomada no esforço de compreender a consciência a partir de uma posição evolucionista, da explicação de como seres vivos mais simples foram capazes de, respondendo aos dados ambientais, desenvolver comportamentos que melhor atendiam às exigências de sobrevivência de reprodução, de maneira cada vez mais elaborada até a habilidade de construir e aplicar intenções específicas com implicações de longo alcance. Tudo isso levou ao surgimento da fala, da capacidade de criar estratégias, novos instrumentos e fomentar a estruturação de uma mente expandida, segundo critérios ambientais.

Nesse processo evolutivo, vários tipos de mentes teriam sido formados como respostas às condições do meio, de acordo com as estruturas dos organismos vivos, indo desde minúsculos seres unicelulares até os animais superiores. Por outro lado, animais com os seres humanos puderam inventar ferramentas -do simples martelo aos robôs mais articulados - apropriadas para realizarem tão bem sua função específica, que em algum momento esses inventos foram dignos de ser considerados como objetos dotados de intencionalidade.

Sistemas Intencionais

Depois de fazer uma breve introdução sobre os tipos de mentes considerados mais importantes por aqueles que as têm, Dennett passa a explicar, no segundo capítulo de Tipo de Mentes, aquilo que ele entende por sistemas intencionais. Nesse sentido, ele divide sua argumentação em quatro passos principais. Primeiro, estabelecendo a base evolutiva do nascimento da ação, para, em seguida, apresentar sua concepção de postura intencional. O terceiro passo é enfrentar os problemas lingüísticos que surgem na classificação das intenções e, por fim, diferenciar a intencionalidade defendida das outras noções concorrentes.

A seleção evolutiva das espécies naturais serve para mostrar como simples moléculas de aminoácidos -o ARN e o ADN-, que são capazes de se auto-replicarem, puderam, ao longo do tempo, produzir organismos mais complicados e aptos a realizar diversos tipos de tarefa. Essa capacidade de reproduzir a si mesma é algo que ainda não foi possível por em prática nos mecanismos artificiais, embora em tese isso tenha sido previsto pelo matemático John von Neumann. Tal atitude, por enquanto, só pode ser observada em moléculas orgânicas que, de fato, passaram a desempenhar ações em respostas a estímulos do meio ambiente. A interação entre os microorganismos e o meio deram origem às ações intencionais dos agentes humanos, em larga escala.

De qualquer modo, há algo de peculiar no comportamento dos retrovírus -compostos apenas de ARN- que permite o associar com descrições típicas de seres mais complexos e conscientes. Isso ocorre porque esses minúsculos seres constituem sistemas que executam com eficiência uma determinada função e são sensíveis a variações externas que não estavam previstas em seu repertório de atuação historicamente acumulado. Seres microscópicos, como os vírus, formam a base de mentes mais complexas do mundo orgânico. A evolução das espécies provou que todos animais superiores são descendentes diretos desses pequenos "robôs" auto-replicantes. Todos os seres humanos são montados por diversas "máquinas" que exercem várias funções especializadas sem consciência do conjunto, apenas seguindo o projeto pelo qual foram unidas.

Todas as células que fazem parte dos corpos vivos são semelhantes aos elementos fundamentais na origem da vida no planeta. Portanto, cada uma delas, são agentes diminutos, sem mentes e podem ser comparados aos homunculus, que agrupados de modo eficaz resultam em seres conscientes. Isso põe por terra qualquer tipo de explicação dualista ou vitalista acerca da origem da consciência. Ou seja, a mente seria formada por pequenos seres desprovidos de consciência. Ao longo de um lento processo milenar, um princípio de organização projetou, através da seleção natural, as mentes compostas por uma grande quantidade de pequenos "interruptores"que nada mais fazem além de responderem com "sim" ou "não" às exigências ambientais. O sistema nervoso autônomo surgiu como um avanço na transmissão dessas informações vitais para os seres vivos, controlando os recursos necessários para preservar a integridade física do sistema.

As entidades mais simples que constituíram esse conjunto de órgãos são agentes dotados de mentes muito restritas à função "liga e desliga". Por causa disso, elas podem ser tidas como sistemas intencionais e suas ações interpretadas à luz de uma postura intencional(1).

Postura Intencional

Pela postura intencional, é possível interpretar o comportamento de um ser qualquer como se fosse um agente racional. Ao adotar essa postura com precisão, o mistério da mente recebe um método adequado de elucidação. O método intencional seria aquele adotado quando as posturas física e de projeto não são suficiente para explicar um comportamento como fruto de uma mente.

A postura física consegue tão somente descrever um fenômeno segundo as leis das ciências naturais, sem atribuir crenças e desejos aos objetos observados -como a evaporação da água etc. A postura do projeto ou do planejamento, tende a explicar uma ação de um artefato qualquer, segundo o plano traçado para que esse atue de uma maneira predeterminada. Assim, o comportamento de um elevador pode ser vinculado a uma série de acontecimentos, desde o acionamento de um botão, até a subida e descida de sua cabine e conseqüente abertura da porta no andar correto. Na natureza, também pode-se elaborar uma explicação com base num planejamento que vincule uma causa ao efeito esperado de um ser vivo como a plantação e colheita de uma safra no tempo previsto.

No caso de uma postura intencional, por sua vez, o sucesso de uma previsão dependerá da mobilização de conceitos que envolvam estados mentais, como motivos e expectativas. Essa perspectiva tem como vantagem principal sobre outros pontos de vista a agilidade na descrição de artefatos mais complexos, como computadores e seres humanos. Nesse nível de interpretação, é admissível atribuir ao agente uma racionalidade. Com isso, a previsão de que o agente racional buscará sempre o bom para si se torna um antropomorfismo inevitável. E tudo que aparenta ser racional passa a ser tratado como um semelhante de quem interpreta.

Os sistemas intencionais, em suma, podem ser definidos como todos os seres cuja atuação é previsível por uma postura intencional. E intencionalidade nesses casos quer dizer, no sentido filosófico, relações entre uma capacidade de agir e o resultado de sua atuação, isto é, a competência que os sistemas intencionais têm de atuar sobre alguma outra coisa, estabelecendo relações. Esse comportamento pode ser meramente automático, tal como quando se relaciona um objeto observado com um conceito, corretamente ou não. O objeto do pensamento com o qual algo observado é relacionado chama-se objeto intencional. As diversas maneiras particulares de pensar é que produzem o erro de compreensão dos sistemas intencionais.

A intencionalidade desses sistemas não deve ser confundida com a intensionalidade de uso lingüístico que é oposta à extensão de um conceito e quer dizer compreensão de um significado. A intensão com "s" está relacionada ao significado de uma palavra, enquanto a extensão é aquele objeto referencial ao qual a primeira é vinculada. Porém, a intenção com cedilha aplica-se nos casos em que o significado não está claro em sua referência e há uma opacidade referencial que impede que a intensão significante seja bem sucedida, ao passo que a intenção relacional ocorre na conexão motivada entre a descrição dada e o objeto referido(2).

Sobre a Precisão Proposicional

Para poder prever a atuação de um agente racional não basta saber se ele tem uma compreensão correta ou errada do significado da ação, ou ainda se possui uma representação mental -desejos e crenças-, mas sobretudo que tipo de relação esta sendo produzida e como. É preciso saber como o agente escolhe os objetos de seu interesse. Nesse contexto, a língua pode ser útil para descrever os contextos particulares envolvidos. Um pensamento é, assim, composto de conceitos particulares.

Caso isso não possa ser feito, então, o pensamento passa a ser desprovido de expressão e não é possível saber se um determinado agente pensa. Desse modo, torna-se necessário encontrar um meio de perceber como as reações particulares desse ser funcionam, a fim de saber qual o conteúdo de seus pensamentos. Entre os humanos, a postura intencional é empregada para atribuir às outras espécies um tipo particular de organização.

Entretanto, aparentemente, só os seres humanos podem formular argumentos ontológicos sobre um objeto observado e distinguir o particular do universal. Os seres humanos possuem crenças e outras disposições que caracterizam as atitudes proposicionais que são limitadas pela opacidade referencial. Não basta apenas uma proposição da língua para aferição da intenção. Além disso, é necessária uma crença compartilhada entre os agentes sobre os significados abstratos em questão, destarte, a própria crença pode ser atribuída a um outro sistema intencional. O sucesso de tal atribuição de conteúdo depende apenas de uma aproximação correta e não de uma exatidão absoluta, como se o referente fosse transparente ao enunciado. As proposições que envolvem números contém um grau maior de precisão que as sentenças intencionais, porém esta incerteza não constitui uma ameaça para a teoria, bastando somente que seja encarada como um sistema prático de definições aproximadas. Tudo isso é resultado da evolução natural da espécie humana que teve suas motivações dadas enquanto ela se constituía como veio a ser(3).

Original ou Derivada

Por fim, resta saber se essa intencionalidade é intrínseca e originária do pensamento humano ou se ela deriva da natureza dos objetos representados como sistemas intencionais. Na verdade, o controle das representações fornece o significado de um conceito a partir dos estados mentais de cada um e, nesse sentido, há uma intencionalidade originária no pensamento de todas atribuições que este faz. O significado de uma expressão está na mente de quem a profere.

Por conta disso, costuma-se dizer que uma língua do pensamento, o "mentalês", forneceria o significado a todos os estados mentais. Todavia, isso não explica como esses significados foram adquiridos pelo mentalês. Para ser possível distinguir um conceito de outro, é preciso haver um consenso sobre o objeto em questão e sua atuação no mundo. Uma intenção só pode ser atribuída se existir um agente físico que realize as atividades complexas de significação, tanto internamente, como em seu comportamento externo. A seleção natural foi a responsável pelo papel desempenhado pelo indivíduo na natureza. Quanto mais elaborado for o sistema de controle desses significados, maior a necessidade de uso da postura intencional. A intencionalidade, finalmente, deriva da complexidade resultante do processo evolutivo que teve origem em objetos simples como "robôs" primitivos que se agruparam em sistemas cada vez mais organizados(4).

Referência Bibliográfica

DENNETT, D.C. Tipos de Mentes; trad. Alexandre Tort. - Rio de Janeiro: Rocco, 1997.

Notas

1. Veja DENNETT, D. C. Tipos de Mentes, cap. 2, pp. 25-31.

2. Veja DENNETT, D.C. Op. Cit, idem, pp. 31-43.

3. Veja DENNETT, D.C. Idem, ibdem, pp. 43-51.

  1. Veja DENNETT, D.C. Ibdem, ibdem, pp. 51-55.

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