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Autor: Antônio Rogério da Silva
Análise de Texto: GEERTZ, C. "O Crescimento da Cultura e a Evolução da Mente", in A Interpretação das Culturas; cap. 3, pp. 67-98.
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De um modo geral, os antropólogos sempre trataram a mente humana a partir de uma visão externa, lidando, diretamente ou não, com os produtos da atividade mental remanescentes de uma sociedade. Ao interpretar os eventos culturais de uma civilização, por vezes, os aspectos mentais são também discutidos, seja da perspectiva externalista e exclusiva da antropologia clássica, seja pela associação de outras disciplinas afins. Salvo engano, os antropólogos de ambas posturas, exclusivista ou aberta a novas descrições, tendem a considerar a investigação da ciência cognitiva como algo equivocado, uma vez que a mente nada mais seria do que uma construção cultural.
Mas aqui aparece um problema a ser deslindado, sob pena de contradição ou petição de princípio. Sendo as atividades culturais resultados de uma mente, não pode esta ser produzida por aquilo que produz. Para desatar esse nó, o antropólogo norte-americano Clifford Geertz (1926) defende a participação de outras áreas do conhecimento que trabalham nesse tema, a fim de interpretar os acontecimentos mentais e culturais sob uma ótica antropológica aberta. Só assim, poder-se-ia entender como o crescimento da cultura e a evolução da mente tiveram um processo paralelo do desenvolvimento ao longo da história humana.
Geertz é autor de uma vasta obra e, entre aquelas traduzidas para o português, destacam-se a coletânea A Interpretação de Culturas (1973), Negara (1980) e O Conhecimento Local (1983). Nesses três livros, estão expostas as idéias principais do autor que propõe a observação de outras culturas desde uma compreensão dos vários aspectos pelos quais os membros de uma sociedade constroem um determinado tipo de conduta. Nesse sentido, as narrativas e o comportamento teatralizado dos indivíduos, segundo papéis constituídos pelas relações interpessoais e com o meio ambiente, constituem a característica simbólica da atuação política de cada um. Sobretudo em Negara, onde é feita a comparação do "estado teatro", em Bali, com a monarquia britânica, essa tese surge com maior nitidez.
Antes porém, em A Interpretação de Culturas, o conceito de cultura já surge com o significado de um sistema simbólico formado pelas interação entre os indivíduos e destes com a comunidade. Nesse sentido, Geertz critica todo tipo de abordagem mecanicista que ignore as condições históricas originais da organização social, o envolvimento afetivo, o papel do indivíduo e suas necessidades básicas. A cultura como um produto de símbolos, por outro lado, não seria o resultado de mecanismos cognitivos internos, mas a resposta pública ao relacionamento social. A lógica da vida real e não a lógica intrínseca de um conjunto formal de símbolos é que deveria ser objeto de estudo antropológico, que tem maior proximidade com uma interpretação crítica literária.
A Evolução da Mente
Geertz procura, portanto, compreender o comportamento humano e sua sociedade como quem lê um texto, visando resgatar de modo "hermenêutico" o significado de uma cultura. Em poucas palavras, o que está em jogo é a capacidade do investigador das culturas se colocar no lugar do outro, em sua tarefa interpretativa. Tudo isso, teria sido deixado de lado pela antropologia clássica e pela ciência cognitiva até a época da publicação da crítica geertziana.
O ensaio "O Crescimento da Cultura e a Evolução da Mente", escrito em 1963 e incluído na coletânea de 73, coloca pela primeira vez, de forma explícita, os principais argumentos de Geertz contra a interpretação fechada da cultura e da mente humana. O texto é dividido em quatro seções, nas quais primeiro se descreve a maneira como a mente foi tratada pela ciência cognitiva, antes de 63, enquanto se ataca a posição falaciosa da antropologia etnocêntrica. Em seguida, um ponto de vista gradualista da evolução natural humana é defendida contra a tendência a favor de uma mudança abrupta dos estágios biológicos para os sócio-culturais. Na terceira parte, os limites da explicação neurofisiológica são apontados e o controle cultural sobre a atividade mental é esboçado, para, finalmente, na quarta seção, concluir pela existência de uma estrutura simbólica pública capaz de explicar adequadamente o desenvolvimento cultural e a evolução mental.
Desde o início, então, Geertz nota quanto a interpretação introspectiva da mente foi estigmatizada como algo fantasioso e de difícil conceituação. Contra isso, as teorias psicológicas e sociais baseadas no método da física, procuraram descrever as atividades mentais sem recorrer a conceitos subjetivos. Nesse contexto, os critérios científicos de objetividade se antepunham a toda forma de subjetividade, instanciando a disputa secular entre o materialismo e o dualismo. Por um lado, o medo de um subjetivismo obscurantista antropológico, carregava a ênfase num mecanicismo artificial, vinculado às leis da física e moral.
Uma abordagem lingüística tentou mobilizar o conceito de mente, transformando esse substantivo numa atividade caracterizada pelo verbo "mentalizar". Por outro lado, a identificação dessa atividade com o comportamento de um organismo também não foi muito frutífera. De fato, para Geertz, a noção mais defensável de mente é aquela que visa a compreender como um sistema de disposições, habilidades, hábitos etc. atribuídos a uma ação supostamente decorrente do trabalho mental. Esse tipo de explicação funcionalista pode ser comprovada empiricamente e só as limitações da língua impediriam uma descrição científica e conceitual que diferenciasse as atividades acidentais das intencionais.
De posse de um quadro conceitual que contivesse os predicados ordenadores dessas atividades, seria possível discutir todas as facetas biológicas, psicológicas e culturais, sem cair numa redução metodológica. A análise da habilidade cognitiva depende de vários fatores que são contemplados por essas disciplinas e a mudança de uma forma verbal para adjetiva ou substantiva não alteraria a descrição científica adequada. No que interessa a antropologia, a questão mental reabre as discussões sobre um tema clássico, ser necessariamente perder-se nas controvérsias tradicionais do etnocentrismo e do evolucionismo(1).
Gradualismo e Fisiologia
Na antropologia clássica, a evolução da mente humana adotou duas perspectivas errôneas. Na primeira, a identificação de padrões de cultura com modos de pensamento levou a proposições que associavam a dificuldade matemática de alguns povos a uma carência na capacidade intelectual e não à conseqüência de uma prática simbólica inadequada ao pensamento matemático, por exemplo. A interpretação evolutiva, menos etnocêntrica do que essa, tentou consertar esse equívoco propondo outro. A saber, considerou a mente humana o produto de uma cultura moderna, sem qualquer participação de uma possível evolução gradual da mente.
Se, por um lado, os evolucionistas defendiam a unidade psíquica da espécie humana, por outra, postulavam que o advento mental ocorreria num momento específico da evolução de modo súbito. A fim de rebater essa última tese, Geertz propôs a noção de desenvolvimento gradual, no qual a acumulação cultural acarretou na evolução simultânea da mente, sem que isso prejudicasse a suposição da universalidade psíquica da humanidade. Para Geertz, a cultura é o ingrediente fundamental no desenvolvimento e ampliação das capacidades mentais.
Entre os primatas, a interação criativa dos fenômenos corporais e os extra-corporais foi crucial para o seu avanço. O sistema nervoso humano, portanto, teria sido modelado por forças sociais e sendo a espécie Homo sapiens a única sobrevivente no gênero Homo. Ficaria, então, preservada sua unidade psicológica e anatômica dentro dos limites de variação admissíveis em uma espécie(2).
O desenvolvimento da fisiologia tem ajudado a, lentamente, superar a concepção comportamental do arco reflexo, por uma visão mais dinâmica do organismo que seleciona a informação e ordena respostas, segundo um padrão comportamental sutil. A noção de um sistema nervoso autônomo contém implícita a idéia da evolução gradativa de suas funções. O aumento na quantidade de neurônio e conseqüentemente, no tamanho do cérebro proporcionou uma melhoria na atuação o organismo em geral. Porém, esse desenvolvimento do sistema nervoso central deve ser tomado em conjunto com os parâmetros sociais e culturais.
As propriedades que tornaram possível o aperfeiçoamento da capacidade de agir do sistema nervoso central decorrem dos recursos culturais que servem como parâmetros intrínsecos dos processos neurais nos primatas. O pensamento utiliza esses recursos -como a construção de imagens- que são retirados da manipulação de objetos públicos. A combinação de situações e relações de modelos simbólicos produz o estímulo necessário para o organismo interagir com seu meio ambiente na coleta de informações necessárias para orientar seu comportamento.
Nesse cenário, o lado afetivo do pensamento exige que o grau de informação não seja muito perturbador, a ponto de provocar um colapso mental, nem entediante, capaz de o desinteressar pelo seu desenvolvimento. O controle cultural das informações excessivamente emotivas surge, assim, como forma de preservar a estabilidade das atividades mentais. Tal controle, não obstante, emerge da necessidade de agir de acordo com os sentimentos e não apenas pelo desejo de sentir uma sensação qualquer. A busca de informação visa estabelecer o significado afetivo de um acontecimento padrão. Destarte, da mesma forma como as idéias são formadas, as emoções requerem um sistema adequado de símbolos públicos(3).
Para tomar nossas decisões, precisamos saber como nos sentimos a respeito das coisas; para saber como nos sentimos a respeito das coisas precisamos de imagens públicas de sentimentos que apenas o ritual, o mito e a arte podem fornecer (GEERTZ, C. "O Crescimento da Cultura e a Evolução da Mente", III, p. 96).
Disposições Mentais
O problema da evolução da mente pode ser subsumido ao desenvolvimento de certas habilidades, tendências e disposições nos organismos e precisa ser elucidado pelo esboço dos fatores que deram origem a essas capacidades. Os instrumentos inventados pelo homem, bem como sua organização familiar e cultural formaram o corpo humano do modo em que ele se encontra atualmente. Os recursos culturais são ingredientes necessários e não acessórios do pensamento humano.
O fato do cérebro humano ter chegado a seu tamanho volumoso, concomitantemente ao desenvolvimento cultural, aponta para a dependência do sistema nervoso humano de estruturas simbólicas públicas que permitiram a construção de padrões de uma contínua atividade autônoma. O domínio público do pensamento humano é o aspecto principal da atividade mental. É no convívio social que os processos mentais ocorrem no ser humano. Para compreender como isso acontece, Geertz chamou atenção da importância de uma aproximação conjunta de todas as ciências comportamentais, cujas descobertas estão sob constante reavaliação por cada uma das disciplinas(4).
Referências Bibliográficas
GARDNER, H. A Nova Ciência da Mente; trad. Cláudia M. Caon. - São Paulo: Edusp, 1995.
GEERTZ, C. A Interpretação de Culturas. - Rio de Janeiro: LTC, 1989.
________, _. Negara; trad. Miguel V. de Almeida. - Rio de Janeiro: Bertrand, 1991.
Notas
1. GEERTZ, C. "O Crescimento da Cultura e a Evolução da Mente", I, pp. 67-73.
2. GEERTZ, C. Op. Cit.,II, pp. 73-82.
3. GEERTZ, C. Idem, III, pp. 82-96.
GEERTZ, C. Ibdem, IV, pp. 96-98.
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